Comandatuba - O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, disse que o Conselho Monetário Nacional (CMN) deve autorizar a liberação dos R$ 1 bilhão acertado com o Ministério da Fazenda para a renegociação das dívidas dos produtores agrícolas. A Fazenda já havia anunciado a prorrogação das parcelas com vencimento em junho, julho e agosto de 2005, mas falta o sinal verde do Conselho.
Segundo Rodrigues, assim que o CMN der o aval, o dinheiro já poderá ser utilizado. ''Era para ter liberado esse dinheiro em uma reunião que estava marcada para a última sexta-feira. Como eu estava fora do País, não sei porque não aconteceu. Mas me garantiram que na quarta-feira tudo será resolvido'', afirmou. Rodrigues foi o palestrante de anteontem do AgriForum, evento que reúne até hoje os cerca de 100 maiores produtores de soja, cana, algodão e de pecuária do Brasil, na Ilha de Comandatuba, na Bahia. O ministro falou sobre ''Desafios, novas oportunidades e estratégias de expansão sustentável para o agronegócio brasileiro.''
A liberação do dinheiro pode ser a única boa notícia que os produtores devem ter por algum tempo. O painel sobre a situação do agronegócio brasileiro apresentado pelo ministro não foi nada animador, apesar dos recordes de exportação de carne e grãos. Segundo ele, o governo sabe da importância do setor rural no Produto Interno Bruto (PIB) mas não tem recursos para investir na agropecuária. ''O cobertor está curto para a doença'', afirmou.
De acordo com Rodrigues, essa é a pior crise já enfrentada pela agricultura brasileira. ''Em toda minha vida, nunca vi uma comparada em extensão e profundidade dessa'', lamentou. Segundo ele, a equação é simples de entender: os custos subiram porque a demanda cresceu, somado às ofertas recordes que fazem os preços caírem, mais o grande endividamento do agricultor (três anos de bons rendimentos fizeram o produtor investir na renovação da frota), que se somou à seca do início do ano. ''O resultado é essa coisa que enfrentamos hoje, complicada ainda mais pelo sucateamento da infra-estrutura e logística'', afirmou.
O ministro disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está a par dos problemas e preocupado com o setor. ''Ele tem feito o possível para ajudar, tanto que foi através dele que os R$ 3 bilhões do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) foram alocados para ajudar os produtores. Ele também está preocupado com a questão da importação de insumos mas isso não depende só do Mapa, é preciso Ibama e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovarem também'', explicou. Além disso, ele garantiu que também está trabalhando para conseguir mais recursos. ''Não faço outra coisa o dia inteiro mas está difícil'', disse.
Para a próxima safra, a visão de Rodrigues também não é das mais otimistas. Segundo ele, a Câmara Setorial de Insumos do Mapa fez uma estimativa desalentadora. ''O setor de calcário espera vender 40% menos que na safra passada, enquanto o de fertilizantes estima 12% menos e o de defensivos, 10% menos. A expectativa é que haja uma redução de 2% a 3% da área plantada'', explicou. Segundo ele, seguramente haverá uma redução no padrão tecnológico com perda de produtividade. ''Se houver condições climáticas favoráveis, pode ser que a perda não aconteça porque a terra foi bem tratada nas últimas safras. Mas se vir uma seca mais leve que a deste ano, a quebra vai ser considerável. Porém, tudo isso é um chute, especulação, a gente só vai ter certeza de alguma coisa quando ocorrer mesmo'', ressaltou.
* A jornalista viajou a convite da It Mídia, organizadora do AgriForum

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