O empréstimo excepcional de US$ 11,2 bilhões acertado pelo FMI à Rússia aliviará a pressão existente sobre sua economia e o risco da desvalorização do rublo, estimou ontem em Moscou o primeiro-ministro Sergei Kirienko, que declarou que se trata de uma ‘‘vitória absoluta’’ de seu país. O primeiro-ministro disse que a Rússia enfrenta agora a árdua tarefa de implementar o plano de austeridade governamental, destinado a romper o círculo vicioso que levou a Rússia à beira de um colapso econômico.
Funcionários estatais também relativizaram a decisão do FMI de limitar a primeira entrega a 4,8 bilhões de rublos, ou seja, US$ 800 milhões menos que o previsto, por causa do fracasso do governo de impulsionar o pacote de medidas para sair da crise através do parlamento. ‘‘É uma vitória completa’’, afirmou Kirienko. ‘‘Eliminamos com êxito um obstáculo’’.
‘‘O próximo passo é implementar, mês a mês, o programa de crise’’, emendou, referindo-se a ao conjunto de medidas de aumentos de impostos que o FMI insistiu que sejam postos em vigor em troca do empréstimo excepcional. ‘‘O objetivo mais importante é balancear o orçamento’’, acrescentou o Kirienko.
Com o conjunto das medidas previstas por Kirienko serão aumentados os títulos da dívida pública em 105,2 bilhões de rublos (17 bilhões de dólares) ‘‘algo mais’’ que o governo previu inicialmente, que foram de 102,2 bilhões de rublos.
Uma ‘‘segunda vitória’’ para Kirienko foi a decisão tomada na segunda-feira à noite no conselho de administração do FMI de colocar à disposição imediata da Rússia um empréstimo de US$ 4,8 bilhões. ‘‘Não foi fácil’’, disse Kirienko, referindo-se às difíceis negociações com o FMI.
Kirienko também se mostrou satisfeito com a melhoria da situação nos mercados russos, onde começou na semana passada uma operação de câmbios entre os bônus do Tesouro e obrigações em dólares. Trata-se de uma medida ‘‘muito firme’’ de tirar a pressão que pesa sobre os mercados para os meses de agosto e setembro, estimaram os analistas. Os Estados Unidos reagiram, elogiando o empréstimo excepcional do FMI dado anteontem à Rússia e o apoio às ‘‘importantes medidas’’ tomadas por Moscou para restabelecer sua economia.
A duração da reunião - mais de seis horas - é um indício da transcedência da decisão que a diretoria do Fundo Monetário Internacional tomou, na noite da segunda-feira, ao apoiar um pedido adicional de crédito de emergência US$ 11,2 bilhões da Federação Russa para reforçar as reservas cambiais do país e manter o valor do rublo. O empréstimo é parte de um pacote maior, de US$ 17 bilhões, a ser integralizado pelo Banco Mundial e pelo governo japonês e desembolsado nos próximos 18 meses, se Moscou cumprir as condições negociadas com o Fundo. Ele representa também a duplicação dos compromissos de crédito que o FMI assumiu com a Rússia.
Fontes da organização disseram ontem que a administração do Fundo está consciente do tamanho do risco que assumiu ao, sob forte pressão do Tesouro americano, recomendar o crédito aos 24 diretores executivos da organização. De acordo com essas fontes, a direção do Fundo reconheceu que negar a assistência a Moscou poderia precipitar uma crise política para o já vulnerável presidente Boris Yeltsin e tornar inevitável uma desvalorização do rublo. Isso certamente exporia outras economias, entre elas a do Brasil, ao risco de ataques especulativos no momento em que as crises política e econômica no Japão e os sinais de perda de vigor da expansão americana apontam para uma deterioração do quadro econômico internacional.
Ao mesmo tempo, o comando do Fundo sabe que se Moscou não cumprir o programa de reforma que se comprometeu a executar para receber o crédito não apenas agravará o problema que pretende evitar e será forçado a uma desvalorização ainda maior de sua moeda como causará fortes danos à credibilidade do FMI, já abalada pela percepção de que sua intervenção na crise asiática foi tardia e errática.
‘‘Esta é a última chance para a Rússia, até porque agora não haverá mais dinheiro’’, disse um funcionário, numa declaração que sugere que esta pode ser, também, a última chance para o Fundo. De fato, a maior parte, ou US$ 8,3 bilhões, dos US$ 11,2 bilhões que o FMI destinou à Rússia não sairá de seu capital ordinário, que está praticamente exaurido, mas do Acordo Geral de Crédito (GAB, na sigla em inglês), uma linha especial de recursos dos países mais ricos criada nos anos 60 para ser usada em situações de emergência.

mockup