Dinheiro de plástico na berlinda
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domingo, 06 de junho de 2010
Gisele Mendonça<br> Reportagem Local 
O fim da exclusividade de uma ''maquininha'' para cada operadora de cartão de crédito, a partir de 1º de julho, está longe de acabar com os problemas que envolvem o setor. Os consumidores arcam com as altas taxas de juros, em torno de 10% ao mês, e os comerciantes penam com as taxas de administração consideradas abusivas - entre 3,5% e 5% por transação, dependendo da operadora. Apesar das reclamações, a popularidade do dinheiro de plástico é indiscutível: em 2000 havia 29 milhões de cartões de crédito no País e em 2009 já eram 136 milhões, enquanto o valor das transações saltou de R$ 45 bilhões para R$ 256 bilhões no mesmo período, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).
Por segurança e praticidade, a maioria dos comerciantes e consumidores prefere o cartão. E é justamente aí que está a preocupação. ''É evidente que cada vez mais nós, lojistas, tentamos nos proteger (dos calotes) utilizando o cartão. E é claro que as taxas (de administração) são embutidas, o que faz encarecer os produtos para o consumidor final. Por isso, (essa situação) é uma grita geral'', afirma o vice-presidente da Associação Comercial do Paraná, Camilo Turmina, lojista do setor de joias em Curitiba.
Ele considera que o fim da exclusividade entre credenciadores e bandeiras já traz benefícios, pois vai reduzir custos. Na prática, a partir de 1º de julho, os lojistas poderão ter uma só maquininha para passar cartões de diversas bandeiras. Até então, a VisaNet, por exemplo, só passava os cartões da Visa, enquanto a Redecard, da Mastercard. ''Hoje, eu trabalho com quatro bandeiras e pago R$ 240 de anuidade por quatro máquinas. É um absurdo'', diz Turmina. Além da unificação da máquina, ele acha que as administradoras não deveriam cobrar anuidade.
Discussão nacional
O fim da exclusidade das máquinas é o primeiro passo do relatório feito pelo Banco Central em parceria com os ministérios da Fazenda e da Justiça. O documento traz sugestões para futuras regulações desse mercado. Uma das propostas é a criação de uma entidade neutra funcionando como câmara de compensação do setor. Neste sentido, os lojistas esperam mudanças urgentes em relação às taxas de administração.
''Nós (comerciantes) chegamos a pagar até 5% sobre o valor de cada venda no crédito. No débito, chega a 2%. São valores abominável em relação à inflação baixa que temos hoje'', aponta Turmina. Ele não acha certo a cobrança em percentual e propõe um valor fixo - e baixo.
Outra reclamção do vice-presidente da ACP é quanto à diferenciação das taxas por setor do varejo. ''Enquanto os postos de gasolina pagam 2,5% por transação, o setor de joias paga 4,5%. Isso não tem justificativa levando em conta que o usuário do cartão é o mesmo'', pondera. Ele não considera ''ético'' cobrar preços diferentes para pagamento em dinheiro e com cartão, como os órgãos de defesa do consumidor têm alertado. Mas, acha que o consumidor também deve entrar na briga contra a indústria dos cartões.
''Quanto mais a população estiver alerta, mais fácil será. Os consumidores precisam ter interesse em saber quanto custa cada produto e quanto eles pagam a mais por conta das altas taxas das administradoras de cartões'', convoca Turmina.
Procurada pela FOLHA, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) não atendeu ao pedido de entrevista. A assessoria de imprensa da entidade informou que, no momento, o órgão não iria se pronunciar sobre os problemas apontados no setor.


