Caiu a confiança dos brasileiros no sucesso do Plano Real. Esse foi o resultado de uma pesquisa de opinião realizada pelo Ibope, a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em março, 46% dos entrevistados acreditavam que o Real seria um sucesso. Sessenta dias depois, só 36% continuavam com a mesma perspectiva. Em contrapartida, o número de pessoas que pressentem o fracasso do plano subiu de 11% para 19% no mesmo período.
‘‘Não tem muita explicação, os números falam por si só’’, comentou ontem o presidente da CNI, senador Fernando Bezerra (PMDB-RN), ao apresentar os resultados da pesquisa. No mesmo período, aumentou também o medo do desemprego. Em março, 35% dos entrevistados havia respondido que tinha ‘‘muito medo’’ de ficar sem trabalho. Em maio, a parcela de pessoas a dar essa resposta havia subido para 45%. Somadas às que disseram sentir ‘‘pouco medo’’, as pessoas que temem o desemprego são 69% da população.
A ameaça de desemprego e recessão econômica são vistas pela população como as principais ameaças ao real. Elas foram apontadas por 19% dos entrevistados. O mesmo número de pessoas identificou a ação do próprio governo como principal ameaça à estabilidade de preços. Para elas, a principal ameaça ao real é o aumento dos preços e tarifas públicas.
Na pesquisa, foram ouvidas 2 mil pessoas, entre os dias 7 a 13 de maio. ‘‘Ela foi feita antes do escândalo da compra dos votos’’, explicou Fernando Bezerra, afastando o episódio como causa da deterioração das expectativas. Ainda assim, 2% das pessoas responderam que as ‘‘negociações para a reeleição’’ eram a principal ameaça ao real. Apontaram a atuação dos políticos, de uma maneira geral, 4% dos ouvidos.
Também caiu a quantidade de pessoas cuja vida melhorou ou melhorou muito após a implantação do real. Em março, 55% dos entrevistados deu essa resposta. Em maio, 47% continuaram com a mesma avaliação.
O aumento de R$ 8,00 no valor do salário mínimo foi desaprovado por 73% dos entrevistados. Porém, o aumento foi mais criticado pelas pessoas de renda média e alta. Assim, 45% das pessoas que ganham até um salário mínimo aprovaram o aumento. Pouco mais de 15% dos entrevistados com renda entre cinco e dez mínimos deu a mesma resposta.
Bezerra aponta as perspectivas de desemprego como uma possível explicação para o desânimo detectado pela pesquisa. ‘‘O parque industrial está-se modernizando, e isso significa perda de empregos’’, comentou ele.’’
Para o presidente da CNI, a proposta de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, que tramita no Congresso Nacional, poderá não produzir resultados em termos de geração de empregos, se implicar custos adicionais para as empresas.’’
Bezerra apontou a proposta de criação de um banco de horas-extras como uma alternativa viável. A idéia, já adotada pela indústria automobilística, é criar uma espécie de conta-corrente de horas-extras entre o trabalhador e a empresa, permitindo aumentar a jornada em períodos e pico e reduzi-la nos períodos de baixa, sem gerar custos adicionais.
A receita que economistas sugerem ao governo para melhorar a avaliação e a percepção que a população tem do Plano Real resume-se a duas providências: marketing e reformas. Mas a perspectiva de atendimento de problemas colocados pela população, como emprego e juros, não está colocada no curto prazo, acrescentam os técnicos.
O presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Juarez Rizzieri, avalia que o aumento da inadimplência influenciou de forma decisiva essa deterioração das expectativas. ‘‘Há uns meses, o consumidor comprou e ficou feliz, agora ele tem dificuldades de pagar e fica triste’’, observa.

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