Dilemas prejudicam empresas familiares
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sexta-feira, 20 de outubro de 2006
Reportagem Local 
Pensar que as empresas são fontes inesgotáveis de renda é o começo para a destruição do patrimônio. Esse foi um dos pontos destacados pelo consultor Renato Bernhoeft durante palestra realizada esta semana em Londrina. Direcionado a proprietários de empresas familiares, o evento tratou dos principais equívocos cometidos pelos empreendedores na história das empresas.
Buscar alguém capaz entre os herdeiros para assumir o posto do fundador, segundo Bernhoeft, é o primeiro deles. ''O grande dilema no processo sucessório não está na gestão. 65% das empresas em todo o mundo desaparecem por problemas familiares'', apontou.
Na visão do consultor, há uma deficiência muito grande na preparação dos futuros empreendedores. Eles têm desde cedo tudo na mão e por isso não aprendem a lidar com o dinheiro. ''Parece que tem um cartão mágico e eles não vêem que o pai está pagando tudo. Depois querem tirar da empresa e se for necessário investir, não sabem fazer'', disse Bernhoeft. E nesse ponto ele foi enfático: ''as empresas não são vacas leiteiras em que o leite não cessa nunca.''
Conforme o consultor, a cada geração as famílias vão gastando mais por serem acostumadas a um padrão de vida mais sofisticado. Mas não há patrimônio que resista a tantas bocas. ''Somos uma burguesia decadente. De cada 100 fortunas existentes hoje, 82 são de novos ricos. As famílias tradicionais não passam de nomes de rua e praça e não têm dinheiro sequer para pagar o IPTU dos imóveis'', alerta.
Os problemas internos acabam agravando a situação. Bernhoeft declara haver uma idealização no modelo familiar que é ilusório e, quando se trata de famílias empresárias, se agrega poder e dinheiro a essa instituição que já possui problemas particulares. O resultado é uma bomba prestes a explodir.
Mas os problemas não se concentram apenas nos gastos. A dificuldade do fundador em passar o bastão é outro empecilho nas empresas. ''Se o empreendedor não conseguir se afastar e entender que a empresa precisa funcionar sem ele, vai haver dificuldades na sucessão. Esse assunto precisa ser trabalhado nas conversas do dia-a-dia das famílias'', aconselha.
E ele avisa que não adianta pensar que o fundador vai sair da empresa para viajar e aproveitar a vida. ''Não existe o verbo aproveitar para os empreendedores e sim trabalhar. O fundador vai precisar encontrar alguma coisa que dê sentido a sua vida'', afirmou. Se para ele é difícil ouvir os filhos falarem em sucessão, o conselho é que saia da sala e deixe o assunto rolar. Mas em momento algum pode-se pensar em tratar do tema à revelia do fundador. Ele é papel determinante para o sucesso do processo e precisa saber o que está acontecendo.
Nesse processo sucessório é preciso encontrar novos caminhos de gestão. ''O modelo da 1 geração não serve para a segunda, é uma nova situação'', garante Bernhoeft. Isso porque se em um primeiro momento havia um fundador como chefe, na sucessão isso pode ser dividido entre herdeiros formando uma nova sociedade.
A idéia de que existe apenas um herdeiro brilhante também prejudica o andamento dos negócios. Bernhoeft aconselha que cada membro da família descubra quais são seus sonhos e invistam nele. E nesse caso nem todos precisam se encaixar nos negócios da família. ''Não é crime o herdeiro não querer trabalhar na empresa. Ele pode ter sucesso em outro ramo'', garantiu.
O evento em Londrina foi organizado pela Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento do Paraná (ABTD/PR) que homenageou Bernhoeft como Personalidade de Recursos Humanos.


