Dieese cobra bom senso no reajuste de preços
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de julho de 2008
Flavio Leonel<br>Agência Estado 
São Paulo - A coordenadora de Pesquisa de Preços do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Cornélia Nogueira Porto, cobrou ontem o bom senso dos vários setores da sociedade no reajuste de preços que estão sendo influenciados pela alta da inflação no Brasil e no mundo. Em entrevista à Agência Estado, ela reconheceu que a alta dos alimentos vem sendo um obstáculo importante para o controle da inflação no globo, mas alertou, sem citar nomes específicos, que há exemplos no País de segmentos que vêm aproveitando o momento para obter mais ganhos, em detrimento das camadas mais pobres da população, que, tradicionalmente, são as que mais sofrem com o aumento do custo de vida.
O recado de Cornélia é direcionado não somente a produtores e comerciantes, mas também a setores de serviços e a pessoas que possuem imóveis e vivem de aluguéis. O alerta foi dado até para a imprensa, que tem papel decisivo como formadora de opinião. Segundo ela, é perigoso, num País que já tem um histórico marcante de inflação, como o Brasil, alimentar as expectativas de inflação, por meio de ajustes exagerados, que, muitas vezes, não têm ligação com o item reajustado, ou pelo modo como alguns setores da mídia vêm tratando o tema recentemente. ''Se a população ficar com a expectativa de que o preço de tudo vai subir, de fato, tudo pode aumentar. É a mesma coisa que falarmos que determinado banco vai quebrar. Se todos falarem que tal banco vai quebrar, todos vão tirar o dinheiro do banco e ele realmente quebra'', disse.
De acordo com a especialista, é fundamental a sociedade não perder a noção real dos preços dos itens comercializados. ''A perda da noção destes valores é péssima, pois as pessoas não conseguem se organizar para comprar determinados bens'', afirmou, lembrando do período de extrema dificuldade causado pela hiperinflação que atingiu o País na década de 80 do século passado. ''Naquela ocasião, era um loucura, pois os preços aumentavam praticamente todos os dias e as pessoas não tinham condições de avaliar se realmente conseguiriam pagar pelo produto.''
A coordenadora deixou claro que não concorda com determinados setores que definem preços com base em indicadores de inflação, como o Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M). Segundo ela, nem sempre o indicador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) reflete a real tendência da inflação para segmentos específicos, já que 60% do índice é formado pelos preços do atacado.
''Tem uma série de preços indexados ao IGP-M que não tem nada a ver com ele. O que tem a ver preços do atacado com os serviços de eletricidade? O que o preço do milho e da soja tem a ver com isso?'', questionou Cornélia, lembrando que o recente reajuste de 8,63% que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou para a Eletropaulo será mais um ingrediente que pressionará a inflação nos próximos meses. ''O que os reajustes do aluguel tem a ver com o aumento do feijão, ainda mais com o Brasil sendo grande produtor?'', indagou.


