Dias: 'O governo parasitou a Copel' Ellen Taborda
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2001
Ellen Taborda<br>De Curitiba 
Dias: 'O governo parasitou a Copel'
O senador Osmar Dias (PDT) defende a revisão dos contratos assinados entre a Copel e empresas privadas. Em sua avaliação, as parcerias não trouxeram nenhum benefício para a estatal e tiveram o único objetivo de ''drenar recursos para alguns privilegiados''. Dias afirma que o interesse do governo do Estado em vender a Copel é ''apagar irregularidades encontradas em contratos e no uso de ações como garantia em negócios''.
Folha Como o senhor avalia as parcerias firmadas entre Copel e iniciativa privada, nas quais a estatal aparece como sócia minoritária?
Osmar Dias Essas parcerias são como drenos, colocados para levar recursos da Copel para alguns privilegiados. Primeiro, por lei, a estatal não poderia nem ser minoritária nessas empresas. Também não houve licitação, como é necessário quando se trata de prestadoras de serviço. É estranho que a Copel, que é reconhecida como referência em tecnologia, faça um contrato com uma empresa (Escoeletric) formada por funcionários que nunca exerceram trabalho em energia elétrica. É irregular também o caso da Tradener, que é uma empresa que foi constituída com R$ 10 mil. Ora, com esse valor não se monta nem estabelecimento para vender cachaça. E hoje o capital dela é de R$ 2 milhões, um aumento fantástico em dois anos. Tudo para intermediar energia elétrica, recebendo 2% de participação. É mais fácil vender a energia da Copel do que pão na padaria. Há irregularidades de cima a baixo nessas empresas. Não há nada que justifique a participação da estatal nelas. Todas essas questões precisam ser explicadas pelo governo do Estado.
Folha Na sua avaliação, essas parcerias interferem no funcionamento da estatal?
Osmar Dias A Copel nem sequer percebe a presença das empresas no trabalho diário, apenas no momento da divisão dos lucros. Pois a estatal faz todo o serviço que há nos contratos. Se as empresas não existissem, o trabalho na Copel continuaria o mesmo, só que com mais lucros, revertendo em benefício da população. O governo parasitou a Copel, que sempre foi referência nacional. Ela foi usada indevidamente como garantia para títulos podres (no caso da venda do Banestado para o Itaú) e para empréstimos junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para cobrir folha de pagamento.
Folha Essas operações influenciaram, em sua opinião, na decisão de privatizar a estatal?
Osmar Dias Eu considero esse desespero do governador Jaime Lerner em vender a Copel mais como uma alternativa para a queima de arquivo do que para arrecadar fundos. O objetivo maior do governo é passar uma borracha nas irregularidades encontradas na estatal, notadamente a partir de 1997.
Folha Essas parcerias poder ter afastado grupos financeiros interessados na compra?
Osmar Dias Elas deterioraram o preço a ponto de afugentar os interessados. Ao comprar a Copel, os grupos ganhariam vários sócios que só participariam dos lucros, não da produção. Outro ponto são as elevadas multas no caso de rescisão de contrato, que chegam a R$ 20 milhões no caso da Tradener.
Folha É possível reverter isso?
Osmar Dias Todo contrato que fere o interesse público tem que ser revisto pela Justiça. Cabe ao Ministério Público entrar com ações para anular as parcerias.
Folha O senhor já entrou com alguma medida judicial para tentar frear isso?
Osmar Dias O meu partido, o PDT, entrou no Ministério Público com um pedido de investigação dos contratos. Estamos agindo com responsabilidade. Levamos os fatos à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que é responsável por fiscalizar e até denunciar, se necessário. Eu estou aguardando um relatório da Aneel para tomar outras providências.


