O Plano Real completou 10 anos ontem e um consenso em torno do projeto criado pela equipe econômica do então presidente Itamar Franco é a maior constatação feita neste aniversário: a implementação do projeto foi uma escolha pelo fim da inflação em detrimento da geração de empregos. O ponto de vista é comum entre analistas de mercado que participaram ontem de uma mesa-redonda realizada na Folha para avaliar a década de vida do plano.
Criado em 1993 pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, o Plano Real estabelecia metas para a promoção do ajuste fiscal brasileiro, novos acordos para o pagamento da dívida dos Estados com a União e aprimorava o programa de privatização de empresas estatais deficitárias, além, é claro, da troca da moeda vigente, o cruzeiro real, pelo real, por meio de uma unidade de transição conhecida como URV (Unidade Real de Valor) . ''O controle inflacionário, a redistribuição de renda e a retomada do vigor orçamentário eram os objetivos da medida'', lembra o ex-ministro da Indústria e Comércio da gestão Itamar e ex-banqueiro José Eduardo Vieira.
Sem sombra de dúvidas, o maior sucesso do plano foi o fim do processo inflacionário que o País herdou da década de 80. Em 1993, ano anterior ao de implantação do real, a inflação anual do Brasil chegou a um índice superior a 2.700%. ''Era impossível se planejar o orçamento doméstico. A inflação mensal chegava a 80%, um absurdo'', afirma o professor de economia da Faculdade Metropolitana, Flávio Oliveira dos Santos.
O real trouxe de volta às mãos do Planalto o controle desse índice, que já em 1995 ficou na casa dos 9%. Como consequência, o poder aquisitivo do brasileiro no mesmo ano cresceu até 20%, marcando períodos que ficaram conhecidos como a ''era da dentadura'' e a ''era do frango'', em referência às facilidades que o cidadão passou a encontrar para ter acesso à serviços de saúde e a alimentos.
A bonança, no entanto, durou pouco tempo. ''A paridade do real com o dólar trouxe estabilidade monetária. Em compensação, as importações invadiram o País, gerando déficit da balança comercial e levando nosso dinheiro para o exterior'', conta Oliveira. O professor explica ainda que o desemprego veio quase como consequência natural do processo. ''A indústria e o comércio, por exemplo, não tinham mais dinheiro para investir na geração de empregos. Isto estava acontecendo no exterior com o nosso dinheiro'', destaca o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Norte do Paraná (Sinduscon-Norte), Junker Grassiotto.
Tal processo se acentuou de uma forma que o índice de desemprego nos mesmos dez anos de Plano Real saltou de 5% para 20%. Inversamente, o ganho de poder aquisitivo adquirido nos primeiros anos se inverteu, principalmente devido aos processos de privatizações. ''Não houve reajustes salariais suficientes para compensar a inflação do período e ao mesmo tempo cobrir despesas que antes eram de responsabilidade do Estado'', afirma o presidente do Sindicato dos Bancários de Londrina, Geraldo Fausto dos Santos.

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