Devedores perdem os carros
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sábado, 21 de fevereiro de 1998
Carina Paccola 
Paulo WolfgangFora de circulaçãoPátio de financeira em Londrina, repleto de carros retomados de devedores por determinação judicialBuscar recursos no mercado financeiro para comprar um carro nem sempre acaba bem. Do início do contrato até a quitação do financiamento, as prestações - com juros já embutidos - muitas vezes começam a pesar mais do que se calculava. As financeiras de montadoras registram hoje o maior índice de inadimplência dos últimos dez anos. O resultado é que os devedores estão perdendo os carros e o dinheiro investido. Em Londrina, cresce todos os dias o número de mandados judiciais de busca e apreensão de carros e de reintegração de posse, para os casos de leasing.
Na sexta-feira à tarde, J.Z.N. estava em casa no Jardim San Remo, zona oeste de Londrina, quando recebeu um oficial de Justiça encarregado de levar o Gol 97, que havia comprado em setembro, pelo sistema de leasing, de uma concessionária da Cidade. Na época, J.Z.N. era gerente de uma rede de casa de carne e recebia um salário em torno de R$ 3.500,00.
Pensei em comprar um carro mais barato à vista, mas com o meu salário era possível assumir um financiamento bancário. Foi o que fez. Mas perdeu o emprego logo em seguida e não conseguiu honrar as prestações. Em janeiro, a financeira entrou com pedido de liminar para reintegração do carro. Na semana passada, o juiz concedeu a medida. J.Z.N. conta que amanhã começa a trabalhar num novo emprego. Vou me reestruturar, diz. A intenção de J.Z.N. é fazer um acerto com o banco para ter o carro de volta. Segundo ele, o valor das prestações não pesava no orçamento com o salário que recebia. O problema são os juros cobrados pelo atraso.
O drama de R.F.J., de Arapongas, é semelhante. Com três prestações em atraso, teve o Uno 97 apreendido na quinta-feira. R.F.J. pagou uma entrada em torno de R$ 2.200,00 e 12 prestações de R$ 514,00. O financiamento é por 36 meses. Com a queda nas vendas da empresa onde trabalha, diminuiu também a comissão que recebe. É uma tristeza. Pelo momento por que passa o Brasil, os bancos deveriam ser mais maleáveis.
R.F.J. afirma que está na Justiça para ter o carro de volta. Mas não está fácil. O banco exige que ele pague as três parcelas em atraso, os custos com a Justiça - em torno de R$ 2.600,00 - e adiante mais três parcelas. R.F.J. apresentou outra proposta ao banco. Concorda em pagar as atrasadas e o débito na Justiça. Pagar três que ainda vão vencer é demais. Daria cerca de R$ 5 mil tudo. R.F.J. quer estar com o carro até a próxima quinta-feira. É o único carro que tenho e preciso dele para trabalhar.
Se não quitar o débito, R.F.J. vai perder os R$ 8.400,00 que já pagou. Aí o carro seria leiloado pelo banco. Como faltam R$ 11 mil para quitar o financiamento, R.F.J. teria que pagar a diferença entre o valor da venda do carro e os R$ 11 mil. As vendas da empresa já estão se normalizando. Vou ter condições de pagar o financiamento até o fim. Não entrei num negócio sem poder. Paguei 12 parcelas.
No Brasil, de cada cem pessoas que compraram veículo financiado ou pelo leasing, hoje, seis não conseguem pagar em dia as prestações, segundo a Anef, associação que reúne as empresas financeiras das montadoras. Em todo o País, são cerca de 50 mil compradores de carros a prazo que estão com as prestações atrasadas mais de 30 dias. É quase a metade de todos os carros nacionais vendidos pelas fábricas em janeiro (93.570). A Anef prevê que, dos 50 mil compradores com prestações em atraso, cerca de 20% acabarão perdendo o veículo. Atualmente, as instituições financeiras mantêm estoque de 6.000 carros retomados.
O oficial de Justiça de Londrina, José Francisco Chagas, conta que todas as semanas ele cumpre de dois a três mandados judiciais de busca e apreensão de veículos. Isso acontece com cada um de nós. Somos 60 oficias da Justiça. Dá para ter uma idéia de como é grande o número de retomadas, afirma. Para o trabalho de apreensão, os oficiais contam com as informações dos escritórios de advocacia dos bancos e financeiras.
Como são os maiores interessados na apreensão dos veículos, os escritórios dizem em que local estão os carros. São tantos que, se tivéssemos que fazer o rastreamento, ia demorar muito. A chegada do oficial é sempre uma surpresa. Ninguém vai ficar esperando você aparecer para levar o carro, diz. Os oficiais garantem que não sentem compaixão de quem perde o carro. Se você se sensibilizar, não trabalha. Às vezes, fico com pena porque sei que é o único carro da família. Mas é minha profissão.


