Desvalorizar real é dilema, diz Journal
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de outubro de 1998
Agência Estado/Dow Jones 
Artigo publicado ontem pelo The Wall Street Journal expõe o dilema vivido pelo Brasil sobre desvalorizar ou não o real. Segundo a matéria, algum dia, em breve, o presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe econômica terão de decidir se deixarão o valor do real cair significativamente em relação ao dólar. O mundo está observando, diz o texto.
O Brasil é visto como decisivo para evitar que a crise que começou na Ásia e Rússia se espalhe pelo mundo. Se o Brasil fizer a coisa certa, o pior da crise poderá ter passado. Se fizer errado, os efeitos da calamidade financeira internacional pioram, diz. Escolha dura?, questiona o Journal, para em seguida responder que é exatamente o tipo de escolha que as autoridades econômicas estão enfrentando em todo o mundo - inclusive nos Estados Unidos.
O texto lembra que, apenas 17 dias atrás, o Federal Reserve decidiu cortar sua taxa de juro em 0,25 ponto porcentual, desapontando os mercados, que esperavam uma redução maior. Anteontem, preocupado com as condições dos mercados, o Fed, inesperadamente, reduziu sua taxa em outro 0,25 ponto, reanimando os mercados.
Infelizmente para (Fernando Henrique) Cardoso, que deseja não desvalorizar sua moeda, a questão da desvalorização tem sido, há décadas, o foco de um debate quase teológico entre especialistas econômicos.
O artigo do Wall Street Journal expõe argumentos contra e favor da desvalorização. A defesa da desvalorização, segundo o artigo, é clara: Quando algo ruim acontece com a demanda pelos produtos e ativos de um país, o inteligente a se fazer é o que as empresas fazem quando a demanda cai - cortam os preços. O caminho mais fácil para um país é reduzir o valor de sua moeda em relação a outras, desvalorizar. As exportações são instantaneamente barateadas para os consumidores internacionais, as vendas crescem e a economia se reaquece.
O Journal cita o déficit externo brasileiro, de 4% do PIB, e diz que a inflação, embora mais baixa que no início da década, ainda é superior à dos EUA. Esses números sugerem aos economistas Jeffrey Sachs e Steven Radelet (de Harvard), entre outros, que o real está sobrevalorizado em cerca de 25%.
Mas um argumento forte pode ser usado contra a desvalorização, diz o artigo, lembrando o que aconteceu à Tailândia, Coréia, Indonésia e Rússia, onde a desvalorização foi seguida de recessão, altas taxas de juros, falências e pânico.
Fernando Henrique sabe, segundo o Journal, que puxar o real para baixo poderá provocar alta dos preços das importações e o risco de trazer de volta a inflação contra a qual ele tanto lutou. Com os capitais se movimentando mais facilmente entre os mercados do que uma década atrás, desvalorizar é complicado, reconhece o texto, ilustrando: Os investidores de países ricos emprestam e aplicam bilhões em mercados distantes.
Para economias emergentes, a desvalorização pode ser desconfortável. Mas as alternativas podem ser piores ou mesmo inexistentes, contrapõe o artigo. México, Coréia e Tailândia desvalorizaram somente depois de gastar todas as suas reservas externas tentando defender o valor de suas moedas, costuma criticar o sub-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers. Esses países não tiveram como barrar a queda de suas moedas; de fato, eles deveriam ter deixado elas caírem antes, diz Summers, segundo Journal.
O artigo do The Wall Street Journal, publicado ontem, diz que em alguns círculos conservadores, no entanto, a desvalorização tem sido por muito tempo uma palavra suja. A idéia, segue o Journal, de que as taxas de juros devem acompanhar os demais preços é tão abominada quanto a noção de que o tamanho de uma polegada deveria variar. A última coisa que se quer em dinheiro é flexibilidade. Dinheiro tem que ser uma medida. Tem que ser estável, disse Robert Mundell, economista da Universidade de Columbia e defensor do retorno do padrão ouro.
Os jornalistas David Wessel e Craig Torres, que assinam o artigo do Journal de ontem, citam entre os que aderem a escola de Mundell a própria página editorial do The Wall Street Journal e influentes republicanos do Congresso, o que explica parte da antipatia com aqueles que ridicularizam como devaluationists (literalmente, desvalorizacionistas) no Tesouro norte-americano e no Fundo Monetário Internacional.
O The Wall Street Journal relata, em seu artigo, o fim do câmbio fixo entre os países ricos no início dos anos 70 e dos países em desenvolvimento a partir de 1975. Segundo o WSJ, os que defendem o câmbio livre têm esperado que taxas de câmbio mais flexíveis poupassem o mundo dos solavancos que ocorrem quando há quebra nos sistemas de câmbio fixo. Mas, isto não funcionou bem, diz o Journal.
O Journal destaca que a maior parte dos países prefere ficar entre a política de deixar a taxa de câmbio flutuar e aceitar as consequências, e fixar o câmbio e também aceitar as consequências. O WSJ destaca que o Brasil adotou o real em 1994 como parte de um bem sucedido ataque à inflação. O Banco Central do Brasil, segue o Journal, compra e venda o real para manter o valor da moeda dentro da banda previamente estabelecida contra o dólar.
A moeda tem variado cerca de 7% ao ano entre o limite máximo e mínimo da banda, na expectativa de que isto irá compensar as diferenças entre as economias norte-americanas e brasileiras para evitar a necessidade de ampla e abrupta desvalorização.
As autoridades brasileiras repetidamente afirmaram seu firme compromisso ao atual regime de câmbio, diz o Journal. No entanto, destaca o artigo, o Brasil tem perdido mais de US$ 10 bilhões ao mês, uma vez que investidores nervosos domésticos e estrangeiros retiram seus recursos do país.
Mr. Cardoso, segue o artigo do The Wall Street Journal, espera que o aperto no cinto do governo, as mudanças no custoso sistema de pensão e que os vários bilhões de dólares do FMI, Banco Mundial e dos governos dos países riscos vão acalmar os investidores globais para que o Brasil evite a desvalorização. Mas os mercados sabem que será difícil vender esta idéia aos eleitores e aos políticos.
O prêmio Nobel de economia Milton Friedman acredita, segundo o artigo, que Fernando Henrique Cardoso está seguindo o caminho errado. Um sistema de câmbio atrelado à moeda forte - como o do Brasil - com um banco central independente é uma bomba-relógio e um remédio de desastre. Seu aliado, Allan Meltzer, economista da Carnegie-Mellon University, disse se estivesse no Brasil, pensaria fortemente em desvalorizar. Sua moeda (real) está bastante desalinhada.
Mesmo o economista Robert Mundell, defensor do padrão ouro, não está seguro sobre a hipótese do Brasil evitar a desvalorização. Eles deveriam decidir agora se farão algum tipo de desvalorização, aconselha Mundell, de acordo com o WSJ. Se acreditam que precisam de uma (desvalorização), por qualquer razão que seja, deveriam fazê-la apenas em conjunto com o estabelecimento de uma nova taxa que prometam não alterar outra vez, próximo ao estilo argentino, disse Mundell. Seria desastroso para o Brasil desvalorizar sua moeda em 10% a 20% e então tentar retomar o antigo estilo, conclui o economista.


