Desvalorização na Argentina pode conter inflação no Brasil
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segunda-feira, 04 de março de 2002
Agência Estado 
São Paulo - A trajetória declinante da inflação retomada em fevereiro, após o repique verificado em janeiro, poderá ganhar um alívio adicional no decorrer do ano, segundo o professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Fipe), Heron do Carmo. Ele se refere às desvalorizações de moedas ocorridas em países vizinhos, em especial na Argentina, maior parceiro comercial do Brasil no Mercosul.
De acordo com Heron, a melhor saída para a Argentina é exportar. O país terá de fazer um esforço interno e externo grande e rápido para sair da crise. E isso terá de ser realizado sem o gradualismo que o Brasil utilizou em 1999, quando também enfrentou uma grande crise, diz o coordenador da Fipe, acrescentando que, com o dólar a dois pesos, a concorrência dos produtos argentinos com os domésticos tenderá a aumentar.
O Brasil, de acordo com o economista, está cercado por vários países que estão desvalorizando ou já desvalorizaram suas moedas, o que muda a direção do comércio na região, já que poderá ocorrer uma entrada maior de produtos destes países no Brasil, levando à redução dos preços internos. Além disso, quando a Argentina começar a melhorar suas vendas externas, o Brasil se beneficiará porque o câmbio receberá menos pressão, explica Heron do Carmo.
O presidente da Casa Santa Luzia, Jorge da Conceição Lopes, concorda que a desvalorização das moedas dos países vizinhos poderá trazer algum impacto positivo para a inflação. Mas, segundo ele, pelo menos por enquanto, os industriais argentinos continuam muito confusos.
A Casa Santa Luzia pediu há quase um mês informações sobre os preços de uma série de alimentos que importa da Argentina e não havia recebido nenhuma posição dos empresários. Devem estar aguardando alguma decisão do governo local, estima Lopes, que diz acreditar que os preços, quando forem liberados, se tornarão mais competitivos comparativamente aos brasileiros.
Com relação ao Chile, os preços se mantêm estáveis, afirma o presidente da Casa Santa Luzia, acrescentando que existem cotas de importação acertada entre os governos brasileiro e chileno.
O peso argentino já mostra uma desvalorização de pouco mais de 50%, com a taxa de câmbio local estando em 2,15 pesos por dólar. Para o presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (Abracex), Primo Roberto Segatto, é possível que o Brasil se beneficie economicamente da desvalorização.
Segundo o executivo, há um risco grande de o Brasil sofrer uma invasão de produtos argentinos e chilenos. O governo está gerenciando bem esta questão por meio da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mas não pode descuidar, afirma Segatto.


