Lílian Cunha
Especial para a Agência Estado
O fim da política de câmbio controlado marcou o ano de 1999, segundo os economistas Maílson da Nóbrega, Delfim Netto e Aloízio Mercadante. Os três são unânimes em apontar o abandono do câmbio atrelado ao dólar como a medida mais positiva do ano. Eles também concordam em dizer que a maior gafe de 1999 foi a reforma tributária, que não saiu. Por isso, a mudança no regime fiscal, de acordo com os economistas, é o que há de mais urgente a ser feito em 2000.
‘‘Com o fim da política de câmbio sobrevalorizado e a perspectiva de uma reforma tributária no ano que vem, nunca estivemos tão perto de dar certo’’, afirma o deputado federal Delfim Netto (PPS-SP). Para ele, a política que equiparou o real à moeda norte-americana foi um ‘‘desastre que destruiu os setores produtivos e exportadores do país’’. ‘‘Por isso considero que o ponto positivo na economia este ano foi a desvalorização.’’
O controle do ‘‘overshooting’’, ou seja, do percentual de desvalorização da moeda após a liberação, também foi um dos marcos favoráveis de 1999, conforme o economista e ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega. ‘‘Conseguimos, graças ao acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e à credibilidade da nova diretoria do Banco Central, ficar num patamar de desvalorização em relação ao dólar que varia entre 60% e 70%, enquanto países como a Coréia e o México, que passaram pelos mesmos problemas, viram suas moedas perder até 115% do valor.’’
A desvalorização, segundo o deputado federal Aloízio Mercadante (PT-SP), também foi positiva porque possibilitou a queda dos juros. ‘‘O câmbio flutuante deu mais flexibilidade à política econômica, possibilitando a queda da taxa de juros básica. Agora, o governo pode iniciar um processo de equilíbrio da balança comercial para corrigir o que a política de câmbio fixo provocou: saímos de um superávit de R$ 10,3 bilhões em 1994 para um déficit de R$ 6,5 bilhões no ano passado.’’
Mercadante, entretanto, acha que a desvalorização foi feita de um modo ‘‘desastrado’’. ‘‘O que aconteceu de pior para a economia do País neste ano foi a maneira tardia e abrupta, com vazamento de informações, como foi feita a desvalorização’’, declarou o deputado. A ‘‘desvalorização desastrada’’, aliada à alta de commodities como o petróleo, ao impacto da seca na agricultura e ao aumento de tarifas feito pelo governo, segundo o petista, gerou uma pressão inflacionária que poderia ter sido evitada. O impacto da liberação do câmbio, conforme Mercadante, seria menor se a desvalorização tivesse sido feita em 1998.
O deputado, assim como Delfim Netto e Maílson da Nóbrega, lamenta que 1999 não tenha sido o ano da reforma tributária. Para eles, esta foi a grande lacuna do ano. ‘‘A mudança no regime fiscal não saiu até agora porque o Executivo não quis’’, afirma Delfim Netto. A reforma, continua o deputado do PPB, não era interessante financeiramente para o governo porque, nos últimos anos, a União se beneficiou com o aumento da carga tributária bruta de 28% do PIB (Produto Interno Bruto) para 32%. ‘‘Mas agora o Executivo percebeu que se não aderir ao Congresso para fazer a reforma, ela sai de qualquer jeito’’, afirma Delfim Netto, que aposta em uma reforma fiscal pronta em agosto ou setembro do ano que vem.
Maílson da Nóbrega, entretanto, acredita que a reforma só será concluída se for liderada pelo Poder Executivo. ‘‘Deputados e senadores são suscetíveis à lobbies, o que faz uma reforma feita pelo Congresso ter muitos penduricalhos.’’ O economista diz que o governo errou ao se omitir a respeito do assunto durante a maior parte do ano. ‘‘Ao invés de tomar a liderança do processo, o governo preferiu falar mal do Congresso’’, diz o ex-ministro da Fazenda que considera a aprovação de um novo regime fiscal a questão mais premente para o ano 2000. ‘‘A reforma é fundamental para que o país volte a crescer. Só ela pode dar mais competitividade às empresas.’’
A reforma, complementa Delfim Netto, também é a questão mais importante do próximo ano porque, com uma nova estrutura tributária, que desonere a produção e o comércio exterior, o País poderá voltar a exportar. O combate à pobreza e ao desemprego também deve ser uma das metas para 2000, conforme Aloízio Mercadante. Programas sociais como o Bolsa-Escola (que prevê subsídios para que famílias pobres mantenham seus filhos estudando) e a distribuição de cestas básicas, segundo o deputado, devem estar na pauta do governo. ‘‘Também devemos orientar investimentos no turismo e na construção civil, para gerar empregos.’’Economistas vêem no ajuste cambial o ponto alto da política econômica. Para 2000, afirmam que a reforma tributária é prioridade
Arquivo FolhaNA ROTA IDEALDelfim Netto: ‘‘Com câmbio sobrevalorizado e perspectiva de reforma tributária no ano que vem, nunca estivemos tão perto de dar certo’’Arquivo FolhaMaílson da Nóbrega: ‘‘Ficamos num bom patamar de desvalorização’’Arquivo FolhaAloízio Mercadante: ‘‘A mudança cambial foi desastrada e tardia’’

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