Os reflexos da política cambial já estão batendo no bolso do consumidor brasileiro. Quando o microempresário curitibano Antonio Araújo Chaves entrou numa concessionária Fiat, no final de dezembro, e saiu dirigindo um Sciena 1.0 ele estava convicto de que havia feito um dos melhores negócios da vida. Confiante na estabilidade da moeda brasileira, ele não se importou em dar o seu carro Logus 94/95 de entrada no negócio, por R$ 8 mil, e financiou em dólar outros R$ 9,9 mil, em 24 meses. Como milhares de brasileiros, o empresário caiu numa armadilha chamada pelo governo federal de ‘‘mudança na política cambial’’, ou num português mais simples, ele foi vítima da desvalorização do Real.
O carro que à vista custaria R$ 17 mil e financiado passaria para R$ 22 mil, com a desvalorização saltou para R$ 27,2 mil (valor calculado com base na cotação do dólar comercial do final da tarde de ontem, em US$ 1,75). ‘‘Eu quero matar este governo lazarento’’, desabafa o empresário, que é dono da empresa de serviços hidráulicos e elétricos Montenegro. Por causa da desvalorização do Real, o carro Sciena de Antonio Chaves ficou 32,72% mais caro, em poucos dias. A cada nova cotação do dólar, Chaves vê seu Sciena ficar mais caro.
Além de reclamar do governo federal, Chaves não poupa críticas ao Banco Fiat, onde fez o financiamento. ‘‘Me enrolaram direitinho e agora dizem que não vão rever nada’’, conta o empresário. Para se previnir, ele decidiu recorrer aos órgãos de defesa do consumidor.
Antonio Chaves foi até o Procon, onde recebeu a orientação de procurar a Associação de Defesa e Orientação do Cidadão (Adoc). A entidade começou a reunir reclamações das pessoas que se sentiram lesadas com a compra de produtos vinculados ao dólar. Na próxima terça-feira, a Adoc pretende começar a entrar na Justiça com ações civil pública.
O coordenador da Adoc, em Curitiba, Fernando Kosteski, disse que havia 50 reclamações, até ontem no final da tarde. A quase totalidade dos casos se refere a financiamentos de carros. ‘‘Algumas concessionárias não querem negociar. E as que aceitam a negociação, apresentam propostas que só traz prejuízo para o consumidor’’, afirma Kosteski.
Em um dos casos, o cliente já pagou 10 prestações pré-fixadas com a incidência de um juro médio de 3,9% ao mês, conta o coordenador da Adoc. A proposta de renegociação apresentada pela concessionária permitiria que o dono do carro dividisse o restante das parcelas em 36 vezes fixas, em Real. ‘‘A empresa não está considerando que já há um juro embutido em cada uma das prestações’’, lembra Kosteski.
O Código de Defesa do Consumidor prevê a revisão de qualquer contrato de compra e venda, se uma das partes se sintir lesada ou no caso de ocorrer mudança na economia do País. As ações que a Adoc pretende ajuizar na Justiça a partir da próxima semana vão se basear no fato de que houve houve a ‘‘imprevisibilidade’’ da mudança da política cambial. ‘‘Há quatro anos o dólar estava estável. Os consumidores foram induzidos a assinar os contratos em dólar, pois tinham certeza de que nada mudaria’’, explica o coordenador da Adoc.Marcelo AlmeidaArmadilhaDesvalorização fará o microempresário Antonio Chaves pagar R$ 5 mil a mais no financiamento do carroCarmem Murara

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