Vânia Casado
De Curitiba
O aumento no consumo de álcool hidratado está tão significativo que sustenta a recuperação do preço do combustível. O presidente da Associação dos Produtores de Álcool do Paraná (Alcoopar), Anísio Tormena, não tem ainda o percentual de aumento no consumo, mas alegou que os produtores já estão se precavendo e retendo parte da produção para passar o período da entressafra. A expectativa dos produtores é manter oferta do produto a partir deste mês quando as montadoras relançam os carros a álcool, o que deve aquecer ainda mais o mercado.
Com isso, o preço está firme e a Bolsa Brasileira do Álcool (BBA), órgão criado para regularizar o mercado, fixou o valor do produto em R$ 0,41 o litro para outubro, quando há quatro meses atrás a situação era outra. O álcool era comercializado a R$ 0,15 o litro e mesmo assim as usinas estavam superestocadas, a ponto de entrarem em colapso por falta de local para armazenar a produção e por falta de mercado para o produto. Agora, o quadro foi totalmente revertido e os produtores já pensam em recomprar o álcool vendido à BBA que estava destinado à exportação. Segundo Tormena, os produtores não querem correr o risco da possibilidade de falta álcool no período da entressafra para não comprometer o reaquecimento do setor, que está ocorrendo, via mercado.
Conversão de motores O consumo de álcool começou a aumentar quando o governo elevou o preço da gasolina e os consumidores começaram a converter os motores de seus carros da gasolina para o álcool. Tormena disse que ocorreram tantas conversões de motores, que provocaram uma desordem no mercado. Hoje eles não têm ainda elementos para dimensionar o aumento no consumo. Chegou a classificar o aumento da demanda como predatório, porque não tem controle nenhum. ‘‘ Daí a preocupação dos produtores’’, justificou.
Na previsão de Tormena, se o consumo de álcool continuar aquecido até o início da safra, em abril, os produtores não terão mais nenhum litro de álcool nas usinas. Toda a produção estará de posse da Petrobrás e da BBA. No período de safra da cana-de-açúcar, os produtores chegaram a acumular cerca de 2 bilhões de estoques entre a produção remanescente de anos anteriores e a produção desse ano. As unidades produtoras estavam abarrotadas, sem ter onde mais colocar o estoque.
Na bomba O aumento no consumo provocou a elevação nos preços do álcool, que em breve serão sentidos na bomba, alertou Tormena. Hoje, ao invés das distribuidoras achatarem os preços como vinham fazendo, agora elas correm atrás das usinas à procura do produto para comprar, disse o produtor. Segundo ele, a tendência é manter o preço do combustível em 60% inferior ao preço da gasolina, que atualmente é de R$ 1,20 em média, em Curitiba.
Em função dessa reversão nas expectativas, Tormena afirmou que ‘‘a hora é de ajuntar os cacos e reativar a atividade’’. Mas alertou para os problemas previstos para o ano que vem. Com a crise vivida pelo setor sucroalcooleiro nos últimos dois anos e a estiagem que está ocorrendo em toda a região Centro-Sul, a produção de cana-de-açúcar deverá apresentar uma quebra de 15%. Essa quebra poderá ser agravada com o desestímulo do produtor que não fez o replantio para renovação dos canaviais. Segundo Tormena, na última safra 90% dos produtores não investiram no replantio.
Bolsa A recuperação dos preços do álcool foi atribuída em parte à formação da BBA, que foi a responsável pela organização do setor, disse Tormena. Segundo ele, mesmo que houvesse aumento no consumo de álcool em função do aumento no preço da gasolina, como de fato está ocorrendo, mas se não houvesse a organização dos produtores dificilmente o setor conseguiria a recuperação em apenas quatro meses.
A BBA é uma associação formada por 170 unidades produtoras, responsáveis por 80% da produção de álcool da região Centro-Sul. A BBA começou a comprar o álcool dos produtores quando os preços estavam aviltantes, em torno de R$ 0,18 o litro e passou a negociar com as distribuidoras em nome das usinas. No início foi difícil e enfrentou a concorrência de usinas não alinhadas que ofereciam a produção a preços baixos para as distribuidoras. Paralelamente à pressão do mercado, a BBA começou a identificar mercados alternativos como a exportação de álcool.

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