A razão básica da pobreza do trabalhador brasileiro não está na falta de emprego e nem na baixa qualidade dos postos de trabalho: o problema é mesmo a baixa qualificação do próprio trabalhador, fator principal para que ele tenha uma renda baixa. A tese foi defendida ontem pelo economista da Diretoria de Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Ricardo Paes de Barros, durante debate na sede da entidade, sobre desemprego no Brasil. ‘‘Nosso foco deveria ser o do crescimento da renda do trabalhador’’, afirmou.
As idéias expostas por Paes e Barros diferiram bastante das apresentadas por outros debatedores, como o diretor-executivo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcio Pochmann. O trabalho apresentado por Pochmann manteve as preocupações clássicas com o nível de emprego, dependência da economia - e consequentemente do mercado de trabalho - às injunções internacionais e desestruturação do mercado de trabalho frente à crescente informalidade do emprego.
Segundo Pochmann, a experiência do pós-guerra mostra que muito do que se conseguiu de prosperidade se deveu ao fato de que 90% da População Econômicamente Ativa (PEA) dos países era assalariada. Isso permitiu uma recomposição e aumento da renda. Ele se mostrou muito preocupado com o que considerou desestruturação do mercado de trabalho brasileiro nos anos 90, com aumento de ocupação não assalariada e outras formas de ocupação que são na verdade apenas estratégias de sobrevivência.
Além disso, frisou, cada vez mais a dinâmica da economia tende a depender da dinâmica internacional, o que reduz a capacidade do País de fazer políticas nacionais. ‘‘Isso talvez seja adequado ao Chile, que é um País geograficamnete pequeno, mas não ao Brasil, com suas dimensões continentais’’, afirmou. O Brasil, para ele, abre mão da sua possibilidade de crescer via fortalecimento do mercado interno, em nome da inserção à dinâmica internacional.
‘‘Se formamos subordinados e ricos, qual é o problema?’’, indagou, por seu turno, Ricardo Paes e Barros, para quem a questão da subordinação, se necessário, pode ser resolvida mais à frente. ‘‘Também não me importo em que o mercado esteja desestruturado, com menos assalariados e mais gente trabalhando por conta própria, se estes últimos estiverem com sua renda em crescimento’’, reforçou.

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