Quando a indústria moageira de trigo, no início da semana - na melhor das intenções -, alertou o governo sobre iminente crise no abastecimento de trigo, na verdade estava levando em conta apenas a oferta de matérias-primas. Faltou considerar a outra vertente da questão, a de que a mesma desvalorização do peso argentino - que pode levar o fornecedor a reter o grão - também pode facilitar a entrada da farinha de trigo em maior quantidade.
A informação na imprensa, quarta-feira, de que a Abitrigo está preocupada com o desabastecimento repercutiu na indústria de panificação como em toda a cadeia do trigo. Mas, estes segmentos, de repente, podem até se beneficiar disso, ou seja a entrada da farinha argentina, a esta altura mais competitiva.
Esta hipótese, convenhamos, é pouco provável; além disso, traduzida em números representa muito pouco (ano passado entraram no País entre 210 mil e 220 mil toneladas de farinha). No entanto, teoricamente, é uma possibilidade que não pode ser desprezada. Nem escamoteada quando se trata de buscar soluções emergenciais, como agora.
Sobre o comprometimento na oferta do grão argentino, parece não haver unanimidade no próprio segmento industrial. Por exemplo, o empresário Lawrence Pih, de São Paulo, é cauteloso e prudente interpretando que os contratos com a Argentina devem ser cumpridos, deixando entrever que a situação não tão grave. Enquanto isso, setores do governo não vêem problema com o trigo. E ha industriais admitindo até que as indústrias terão que reduzir o preço da farinha - na hipótese da concorrência do produto argentino.
Na verdade, todas essas preocupações - e o risco de desabastecimento, se é que existe -, estariam fora de cogitação se o País tivesse uma reserva de trigo da sua própria produção, já que reconhece sua capacidade tecnológica e ambiental para produzir. No entanto, o pacto entre o campo, governo e indústria não chegou funcionar totalmente, pelo menos na ótica dos produtores. Essa vulneralidade dos estoques brasileiros de trigo - a despeito da improtância estratégica do alimento - é que permite especulações como as atuais.
O relatório mensal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) neste final de semana deve apontar redução na oferta de trigo norte-americano. Mesmo assim, vale questionar se isso é mais um fator a justificar a preocupação - levada ao governo no início da semana pela Abitrigo - ou se a indústria nacional quer apenas se precaver contra possível entrada da farinha argentina. O que não deixa de ser plausível. Afinal, embora a livre escolha do ponto de vista do consumidor seja salutar, todos gostariamos que um alimento tão nobre fosse colhido e industrializado por brasileiros, da espiga ao macarrão da mama. Infelizmente o conceito de cadeia produtiva no Brasil é excludente.

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