Rio - Uma forte desigualdade marca o crescimento industrial no País. Setores exportadores e de bens duráveis garantem o avanço do emprego. Mas, para outro grupo, a produção pouco tem avançado e o emprego recua. Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostra que seis ramos industriais - responsáveis por 43% da mão-de-obra industrial e que dependem diretamente da evolução da renda - perderam pelo menos 100 mil postos de trabalho em 2004.
O crescimento geral de 1,9% do emprego na indústria em 2004 esconde o fosso entre a performance nos setores. Em comum, o emprego em vestuário, têxtil, papel e gráfica, produtos de metal, cimento e calçados estagnou ou caiu. Na média, o recuo ficou entre 2,5% e 3%, estima o diretor-executivo do Iedi, Julio Sérgio Gomes de Almeida. Eles compõem, à exceção do cimento e produtos de metal, uma categoria que os economistas chamam de semiduráveis.
''Com raras exceções, esses setores líderes no emprego de mão-de-obra industrial tiveram péssimo desempenho no que diz respeito a novas contratações, por causa do baixo crescimento ou mesmo declínio na produção'', resume Gomes de Almeida.
Os salários, constata o IBGE, começaram a se recuperar muito tarde em 2004. A renda do trabalhador metropolitano caiu no primeiro trimestre e começou a subir no segundo. Mas, para 2005, as expectativas são mais positivas. ''É uma retomada tardia'', diz Fábio Romão, economista da LCA Consultores. Ele acredita que a massa de rendimentos deve crescer perto de 5% este ano. O economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Luiz Eduardo Parreiras estima um pouco mais, entre 6% e 8%.
Para Gomes de Almeida, ''os produtos desse segmento não são tão essenciais como os bens não-duráveis e sua compra pode ser adiada quando o rendimento familiar se retrai. E os mecanismos de crédito não são capazes de alavancar estas vendas''. Ele acredita que o segmento precisa de políticas industriais de curto prazo, principalmente, por causa da implicação no emprego.
No setor de vestuário, a queda do emprego chegou a 7,5% no ano passado, segundo o levantamento baseado em dados do IBGE. ''Quando se fala que a indústria cresceu, precisa saber qual indústria. Quem depende do mercado interno está caindo'', diz o presidente da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), Roberto Chadad. O pequeno crescimento de 2004 não cobre a perda de 12,3% na produção em 2003, quando 136 mil pessoas foram demitidas.
Cenário oposto aconteceu com outra parte dos ramos industriais. Basicamente favorecido pelo forte impulso exportador, o setor de máquinas, importante na absorção de mão-de-obra, avançou 14,1% no emprego e 16,1% na produção. Beneficiados pelo crédito na decisão de compra do consumidor, outros segmentos também avançaram. Foi o caso dos automóveis, cuja produção física aumentou 29,9%, ainda segundo dados do IBGE. Para o subgrupo de fabricante de meios de transporte, que inclui carros, o emprego cresceu 8% no ano passado.
Outra análise do Iedi mostra bem a diferença entre os setores industriais. Em 2004, a produção geral cresceu 8,3% no País. Os recordes anteriores de produção das categorias de bens de capital (em 2001), duráveis (1997) e intermediários (2003) foram superados no ano passado. O patamar dos não-duráveis (higiene e limpeza, medicamentos, livros, alimentação), que dependem mais da renda, está no mesmo nível do recorde anterior (1997) - o cenário é de estagnação.
No outro extremo estão, de novo, os semiduráveis (roupas, calçados, utensílios domésticos, brinquedos, artigos de cama mesa e banho). Para a categoria igualar o recorde anterior de fabricação, em 1994, seria preciso que a produção em 2004 tivesse sido 42% maior.

mockup