Desenvolver competências ou apertar parafusos?


Afonso Fleury e
Maria Tereza Leme Fleury

Dois recentes pronunciamentos na esfera do governo federal reacendem a discussão sobre o futuro da indústria no Brasil. O ministro Alcides Tápias destacou a necessidade de revalorizar o selo ‘‘Made in Brazil’’ e o ministro Ronaldo Sardemberg, com o aval do presidente Fernando Henrique, procura reconstruir as bases da área de Ciência e Tecnologia no País. Esta área há tempos vem sendo enfraquecida e desmobilizada, em um processo acelerado pelas privatizações, na medida em que eram as empresas estatais as que mais investiam em desenvolvimento tecnológico.
A capacitação tecnológica local precisa ser assumida como uma questão fundamental, mobilizadora de recursos e investimentos, pois, apesar dos indicadores macroeconômicos brasileiros serem considerados bons e até exemplares, a distância tecnológica entre o Brasil e os países industrialmente avançados cresce em proporções assustadoras.
Colocando esta questão em um quadro de referência mais atual, sem as ideologias do debate das décadas passadas, a pergunta que nos parece chave é a seguinte: em uma economia baseada na informação e no conhecimento, quem está desenvolvendo as competências necessárias para identificar os produtos que os mercados necessitam, para projetá-los, manufaturá-los e distribui-los?
Uma recente propaganda da Volkswagen nos fornece algumas pistas. A maioria de nós reparou com um outdoor que dizia: ‘‘A fábrica dos sonhos dos alemães; o carro do sonho dos brasileiros’’; ou seja, a competência para projetar a fábrica, desenvolver o produto e definir como produzi-lo é dos alemães; aos brasileiros cabe a montagem, a distribuição e o consumo.
Mas não é só em produtos complexos, como automóveis ou equipamentos de telecomunicações e computação que se observa o quadro acima. Até a indústria local dos prosaicos parafusos e porcas está em apuros, por não conseguir acompanhar o ritmo das demandas por qualidade e inovação em setores como o automobilístico, que utiliza sistemas automatizados para alimentação das linhas de montagem e robôs para a inserção e aperto.
O primeiro desafio do governo é por onde começar. O ponto de vista manifestado pelo ministro Tapias volta-se para as questões da exportação, da valorização de marcas locais e da qualidade do produto, que exigem esforços nas áreas de normalização, metrologia e certificação. As preocupações do ministro Sardemberg voltam-se para a capacidade local de inovação e a intensificação dos esforços nas áreas de pesquisa e desenvolvimento.
O encaminhamento de propostas viáveis tem como pressuposto o correto entendimento da nova lógica de organização da indústria globalizada e do potencial de inserção do Brasil nesse quadro. Ao lado das questões tecnológicas e operacionais, é necessário considerar os aspectos econômicos e políticos, principalmente no sentido do poder de influência e de mobilização que têm atualmente as grandes corporações transacionais. Mais que impulsionar as empresas brasileiras na competição com as estrangeiras, o governo precisa se preocupar com a formação de competências locais em áreas estratégicas, independentemente da natureza jurídica da empresa: nacional, multinacional ou estatal.
O conceito de competência não se limita à questão de criar estoques de conhecimento (por exemplo, a partir de incentivos à atividade de P&D), mas de encetar um processo dinâmico de aprendizagem, no qual a ação empresarial está diretamente associada à geração de conhecimentos, do nível estratégico ao operacional.
Ao mesmo tempo, questões como as estratégias empresarias e a formação local de competências estão intrinsecamente ligadas ao novos arranjos empresarias (redes, cadeias produtivas e agrupamentos), que buscam a eficiência coletiva na economia globalizada. As redes empresarias e especialmente as chamadas cadeias produtivas globais têm lógicas de funcionamento ditadas pelas empresas que detêm maior poder (em geral as corporações transacionais), que procuram manter as atividades que são mais nobres, mais ‘‘inteligentes’’ e geradoras de maior valor agregado. Delegam as demais atividades para outras empresas que aceitem trabalhar de acordo com normas por elas estabelecidas.
Um recente estudo do MIT definiu o novo modelo da indústria americana como constituído por dois segmentos: as empresas líderes e as ‘‘turnkey manufacturing contractors’’, ou seja, empresas especializadas em produzir tudo aquilo que as líderes especificarem. Observa-se, assim, na indústria americana uma diferenciação entre as empresas que interagem com os mercados, identificam necessidades, desenvolvem produtos e distribuem, valorizando a sua marca – ou seja desenvolvem, sobretudo, competências estratégicas – e as empresas anônimas, que preparam os componentes e montam o produto, desenvolvendo essencialmente competências operacionais.
Na área de alimentação, quem dita as regras do jogo, atualmente, são as grandes cadeias de distribuição: Carrefour, Wal-Mart, Pão de Açúcar. As demais empresas que participam da cadeia produtiva têm que atender aos ditames das primeiras. Somente outros gigantes da indústria mundial, como Nestlé e Parmalat, conseguem, por meio de vultosos investimentos em marketing, contrabalançar o poder dos supermercados. Outra alternativa para atingir o mercado é a da Sadia, que desenvolveu competências em logística e distribuição para alcançar milhares de pontos de venda no Mercosul.
Estudo recente por nós concluído mostra como, em diferentes arranjos empresariais, as empresas que comandam as cadeias desenvolvem competências voltadas para os mercados e a inovação, delegando para as demais o desenvolvimento das competências operacionais. (Fleury, A. e Fleury, M.T. ‘‘Estratégias empresariais e formação de competências’’, editora Atlas, 2000).
O desafio do governo é, então, articular empresas, universidades e sindicatos para, em um trabalho conjunto, prospectar os mercados e campos de conhecimento, arbitrar em negociações internacionais, desenvolver programas e metas de longo prazo e compromissos mútuos para que, no futuro, não sejamos somente um País de apertadores de parafusos e distribuidores de pizzas, mas um País com reconhecidas competências estratégicas e operacionais.
AFONSO FLEURY é professor da Poli/USP e presidente da Fundação Vanzolini; Maria Tereza Leme Fleury é professora e vice-diretora da FEA e coordenadora do PROGEP-FIA/FEA/USP.

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