O ministro do Trabalho, Edward Amadeo, surpreendeu sindicalistas e jornalistas, em São Paulo, ao comentar a taxa de desemprego da pesquisa Dieese-Seade, sem contestá-la. Na história recente do Brasil, nenhum ministro trabalhou publicamente com os índices dessa pesquisa, e sim com os dados do IBGE, que apontam desemprego mais de 50% inferior. Depois de ter declarado, logo após a sua posse, que não havia crise de emprego - e de ter sido muito criticado por isso -, ontem, na sua primeira aparição pública, na Força Sindical, ele procurou interpretar os números do Dieese.
Amadeo notou, por exemplo, que o recorde de 18,1% de desocupação em março ainda tem forte reflexo da alta dos juros durante a crise asiática e deve ser amenizado nos próximos meses, porque a taxa já voltou aos níveis anteriores a novembro. O comércio pesou muito no resultado, conforme o Dieese, já que eliminou 48 mil postos em março. ‘‘Foi o setor mais afetado pela alta de juros’’, disse. ‘‘A situação deve melhorar agora.’’
Ele também ressaltou que a taxa foi puxada pelo ingresso de mais pessoas no mercado de trabalho, em parte pela sazonalidade - todos os anos isso ocorre após as férias escolares e o carnaval. Em março, o desemprego ultrapassou a marca de 1,5 milhão de pessoas. Ou seja, no mês, houve o registro de 86 mil novos desocupados. ‘‘Desses 86 mil, 40% ficaram desempregados por redução de vagas’’, disse. ‘‘O restante é formado por pessoas que entraram agora no mercado.’’ Amadeo lembrou que a indústria criou 14 mil postos, depois de mais de um ano de declínio na oferta de empregos. ‘‘O número de desempregados é preocupante, mas há tendências positivas’’.
Ele assinou ontem novo convênio com a Força Sindical para liberação de R$ 12 milhões para criação de cursos de requalificação profissional. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo ficou com outros R$ 6 milhões. O dinheiro é do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e será usado, segundo o presidente da central, Luiz Antônio de Medeiros, ‘‘para treinar trabalhadores para o emprego e não para o desemprego, como fazem cursos oficiais que usam verbas parafiscais’’. A ironia teve endereço certo: o sistema S, em especial o Senai.

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