Desemprego é recorde histórico em 98
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sexta-feira, 29 de janeiro de 1999
Agência Estado 
Os brasileiros enfrentaram, no ano passado, as maiores dificuldades no mercado de trabalho desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou a fazer pesquisas sobre emprego, em 1983. Segundo informou ontem o órgão, em 98 a taxa média de desemprego alcançou 7,59%, o mais alto percentual da história do índice. Em 97, a taxa, já crescente, ficou em 5,66%. Nas cinco regiões metropolitanas nas quais é feita a pesquisa (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador) o número de pessoas procurando trabalho no ano foi de 1,344 milhão, o que representou um aumento de 36,43% sobre 97. Na região metropolitana de São Paulo, o contingente em busca de trabalho somou 662.080, ou 31,76% a mais do que no ano precedente.
De acordo com a técnica do IBGE Shirlene Ramos de Souza, o desemprego no Brasil vem crescendo mensalmente, em média, 30% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Se em janeiro isso se repetir, a taxa de desemprego do mês chegará a cerca de 9,50%. Mas, para a técnica, há um total exagero nas previsões dos que dizem que em algum momento de 99 a taxa mensal de desemprego chegará a 13% ou 14%, por conta da recessão mais profunda esperada em decorrência da desvalorização do real. Na avaliação dela, é praticamente impossível acontecer algo assim.
No entender de Shirlene, mesmo que em relação ao mesmo mês do ano anterior o desemprego aumente mais do que 30% este ano, não deverá em momento algum ocorrer uma alta tão grande como a que alguns têm previsto. Ela não quis fazer projeções para o ano, mas admitiu quem em 99 a taxa média de desemprego anual poderá se situar entre 9,5% e 10%.
Entre os setores, conforme já se previa, o resultado mais desfavorável coube à indústria de transformação, com taxa de desemprego médio anual de 8,95% (em 97, 6,92%). Das 2.900.758 pessoas que em 97 trabalhavam nas fábricas das cinco regiões metropolitanas englobadas na pesquisa, em 98 restaram 2.763.733 -um encolhimento de 4,96%, portanto. Foi o terceiro ano consecutivo de queda e com isso houve uma redução acumulada no período de 12,6%.
Mais grave é que, pela primeira vez desde 1984, também o contingente de mão-de-obra do comércio diminuiu, passando de 2.534.468 trabalhadores em 97 para 2.480.827 no ano seguinte. O setor de serviços ainda conseguiu melhorar um pouco a absorção de mão-de-obra, com 8.800.241 pessoas empregadas, número 1,90% acima do apurado em 97. A construção civil manteve praticamente estável o seu contingente de trabalhadores: eles eram 1.149.717 em 97 e 1.155.259 em 98.
O quadro extremamente negativo do mercado de trabalho também se expressou em um crescimento na precariedade do emprego. Pelo terceiro ano seguido, caiu a quantidade de empregados com carteira assinada - em 98, recuou 1,4% e em três anos a queda acumulada já é de 3,5%. Concomitantemente, no ano passado elevou-se em 2,2% o número de empregados sem carteira. E pela primeira na história da pesquisa do IBGE, caiu o número de trabalhadores por conta própria (-0,7%). Neste segmento, somente houve aumento no Rio de Janeiro (e bem expressivo: 5%), o que, para Shirlene, pode se dever aos serviços turísticos informais.
Segundo o IBGE, um dado notável é que o número de trabalhadores sem remuneração, cujo crescimento nas cinco regiões foi de 0,3%, em Recife subiu 32,7%. Shirlene disse que não tem uma explicação consistente para o fato, mas lembrou que no Nordeste é muito comum a prestação de serviços domésticos em troca de moradia e alimentação. Outra demonstração da má situação do mercado é o tempo médio necessário para se encontrar emprego, que passou de 17,97 semanas em 97 para 21,73 semanas no ano passado.
Para os chefes de família, segundo o IBGE, o desemprego em 98 foi bem inferior ao da média geral, embora tenha subido, e ficou em 4,59% (em 97, 3,32%). Para os filhos, contudo, a situação agravou-se muito, com a taxa de desemprego saltando de 10,34% para 13,38%. O IBGE também apurou que cresceu em 62,7% a quantidade de pessoas que partiu em busca de emprego sem nunca ter trabalhado antes e aumentou em 34,1% os que buscavam colocação já tendo experiência anterior.
Segundo Shirlene, a População Economicamente Ativa (PEA) teve um aumento de 1,8% no ano passado e a População Não Economicamente Ativa, isto é, a formada pelos que estão em idade de trabalhar mas estão fora do mercado sem procurar colocação, cresceu 3,3%. Para ela, este aumento se deve, em boa parte, às aposentadorias pedidas por trabalhadores dos setores privado e público, no ano passado, por causa da reforma da Previdência. Muitos aposentados que continuavam trabalhando deixaram seus postos e outras pessoas, por dificuldade de enconrar emprego, acabaram desistindo e sairam da força de trabalho.


