Desempenho do comércio exterior decepciona
Desempenho do comércio exterior decepciona
Walter Belik
No acordo firmado com o FMI no início do ano estava previsto uma reversão completa no desempenho da nossa balança comercial até dezembro. Partindo-se de um déficit de US$ 6,9 bilhões, o comércio exterior brasileiro atingiria um superávit de US$ 10,8 bilhões em 1999. Esse saldo positivo seria possibilitado pela decolagem das nosssas exportações e a redução das importações que, por sua vez, teria como base a liberalização do câmbio e a desaceleração da atividade econômica.
O que se observou a partir de janeiro foi exatamente o esperado para o câmbio e para o nível de atividade econômica. Com a liberalização do câmbio, o real já apresenta uma desvalorização frente ao dólar de 7%, contra uma inflação medida pelo IGP da ordem de 13% (janeiro a setembro). Já a atividade econômica apresenta uma redução significativa se comparada com o mesmo período do ano passado. Dependendo do otimismo do economista consultado, a queda na produção deverá ser maior ou menor, mas as estimativas giram em torno de uma redução no PIB da ordem de 1% nesse ano.
Assim, embora tivessem ocorrido as pré-condições para a reversão do nosso saldo comercial, as exportações não deslancharam e estamos vivendo um período crítico. No acumulado dos oito primeiros meses, o saldo comercial apresentou um déficit de US$ 460 milhões e dificilmente haverá uma recuperação nos próximos meses. Com a queda nas expectativas da balança comercial as necessidades de financiamento do saldo de transações correntes com o exterior se elevaram, com impactos diretos sobre a taxa de câmbio. Pelas contas iniciais do governo haveria uma necessidade de entrada de recursos líquidos da ordem de US$ 22 bilhões mas, certamente esse montante deverá se dilatar devido aos atuais problemas com a balança comercial.
Curiosamente, ao analisarmos o desempenho das nossas vendas externas vamos verificar que, na realidade, as exportações estão reagindo bem. O País tem vendido volumes crescentes de mercadorias ao exterior. O problema é que os preços dos produtos primários e semi-manufaturados, que são a base da pauta brasileira, estão sofrendo uma enorme queda nos últimos meses. Ao mesmo tempo, produtos como o petróleo nos quais a nossa dependência externa é grande, tiveram alta expressiva em período recente.
Para exemplificar podemos tomar o caso de algumas mercadorias como a soja, que teve um aumento de 63,2% no volume exportado e queda de 35,1% no preço médio no comparativo janeiro-julho de 1999 com o mesmo período do ano passado. O mesmo se observa com os aumentos de vendas de 59,3% no açúcar bruto, 57,8% na carne bovina, 17,8% na carne de frango, 42,5% no açúcar refinado, 60,9% em aviões, 12,5% no alúmínio, todos com reduções significativas nos preços praticados.
Do lado das importações vale registrar o caso do petróleo, que dobrou de preço desde o início do ano e que representa aproximadamente 8% da nossa pauta. Além disso, houve um aumento do preço de bens de capital, agroquímicos e produtos farmacêuticos. Assim, apesar da queda no volume importado, o efeito final da redução foi minimizado pelas altas de preços internacionais. A relação entre preços de venda e preços de compra demonstra o que os economistas denominam de deterioração dos termos de troca da balança comercial e que vem acontecendo com o Brasil nos últimos anos.
Essa distorções não ocorrem por acaso mas são resultado da ausência de política industrial que pudesse orientar a economia em direção à substituição de certas importações e à dinamização das exportações. Muito mais do que um problema de paridade ideal da taxa de câmbio esse é uma distorção causada pela falta de políticas. Estamos pagando o preço da liberalização e da desregulamentação apressada que ocorreu no início da década.
WALTER BELIK é assessor econômico SCI/Equifax e professor da Universidade de Campinas (Unicamp)





