Descentralização industrial
As indústrias brasileiras sempre estiveram concentradas na capital paulista e na grande São Paulo. Com o crescente mercado consumidor e a distribuição de riquezas para outros centros, a migração das indústrias passou a acontecer em ritmo cada vez mais frequente. Os especialistas na área questionam se esta descentralização acontece devido aos custos operacionais ou ao fortalecimento das forças sindicais.
Na década de 80, mais de 50% do nosso PIB estava embasado nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a força industrial suplantava a 65%. As guerras entre os estados iniciaram-se pelas indústrias automobilísticas. As transferências das sedes foram acontecendo e os novos investimentos passaram a ser negociados a peso de ouro. O Paraná, que até então não tinha know-how na indústria automobilística, passou a abocanhar uma fatia deste mercado, assim como o Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro, sem nos esquecermos dos investimentos ocorridos em Minas Gerais.
A migração de indústrias de outros setores também passou a ser uma realidade, com destaque ao ramo calçadista que foi se fixando nos estados do Nordeste, com o objetivo principal de baixar os custos da mão-de-obra, tendo em vista a falta de especialização e o fato de representar uma das únicas opções de trabalho regional, culminando com a consequente lei da oferta com a procura, baixando sobremaneira os custos de contratação.
Esta mutação industrial também ocorreu em outras áreas. O Paraná, como uma das maiores fronteiras agrícolas, passou a industrializar a sua produção, mesmo que parcialmente. A mesma estratégia foi sendo adotada em outras regiões, até então com participação mínima no mercado industrial, como acontece na região Centro-Oeste do Brasil, formada pelo maior estado produtor de soja e algodão o Mato Grosso. Só no algodão, detém o percentual de 70% da produção nacional.
A intenção de transferir investimentos das grandes capitais para o interior está sendo fortalecida com os pólos regionais de produção de matéria prima, barateando os fretes e também minimizando custos na falta de concorrência na mão-de-obra.
Para citar o exemplo da região Centro-Oeste, conforme já mencionado, líder absoluto na produção de algodão, os efeitos da migração começam a aparecer com a instalação de indústrias de óleo e também de produtos têxteis e derivados, culminando com uma industrialização em franco crescimento. Quem viver verá o Centro-Oeste brasileiro, como um dos maiores produtores de algodão, uma referência nacional no setor industrial.
Isto sem nos esquecermos do apoio já oferecido à pecuária com incentivo de 5% para o abate de novilho precoce, estimulando sobremaneira a pecuária regional nos diversos estados da região, com destaque ao Mato Grosso.
Poderia o leitor então questionar: por que citarmos tanto a descentralização industrial, tomando como base o Paraná e o Centro-Oeste brasileiro e também parte do Nordeste?
Ocorre que num passado recente resumíamos as economias nacionais entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde os grandes investimentos eram ali realizados. A participação industrial de algumas regiões supracitadas pularam de 0,2% para 4% e este crescimento reduz o custo final do produto porque é muito mais barato transportar um produto industrializado já com o seu benefício agregado do que a matéria bruta para gerar emprego em outras regiões.
É lógico que os estados mais ricos, no caso São Paulo e Rio de Janeiro, estão procurando na justiça meios para bloquearem benefícios para instalação de industrias em outras regiões, haja visto que muitos estados compraram a peso de ouro as instalações industriais dentro de suas fronteiras.
Há quem questione os benefícios atribuídos pelos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e também Bahia na instalação das industrias automotivas. No entanto, deve o governo destes estados prestar contas do por que dos benefícios e os efeitos destes na economia quando questionados.
É benéfica a descentralização industrial pois traz riqueza onde a matéria-prima bruta foi produzida, gerando empregos e reduzindo custos finais do produto. Por isso, sempre afirmamos que o Brasil é um país em franco crescimento com amplas possibilidades de, num curto espaço de tempo, se tornar o destaque mundial em qualidade de produção e preço.
Um simples fato mostra a visão empresarial: será que o mercado ainda não observou que as maiores industrias instaladas na última década e em instalação não estão na beira dos maiores portos brasileiros? Será que este mesmo mercado ainda não observou que instalando estas industrias no Brasi, estes investidores não estariam visualizando o atendimento para toda a América do Sul? A descentralização industrial é a prova da viabilidade de investimentos.
PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista, ex-gerente de banco e assessor financeiro em Londrina





