Entre as cidades paranaenses onde há maior percentual de habitantes com ensino superior, 16 estão na área de influência de Londrina, que lidera o ranking. O número representa mais de 30% dos 50 municípios do Estado onde a população tem maior grau de escolaridade.

A área intermediária de Londrina abrange desde o Norte Pioneiro até o Vale do Ivaí. Entre os 16 municípios dessa região, Londrina tem a maior parcela de pessoas com diploma universitário, totalizando 27,78%, índice que a coloca na terceira posição do ranking estadual. Em seguida, entre os municípios do Norte, vêm Cornélio Procópio (24,01%) e Ivaiporã (19,9%), que ocupam a quarta e a 14ª posição na lista, respectivamente.

Os dados são do Censo Demográfico 2022: Educação: Resultados Preliminares da Amostra, divulgados recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e indicam que a expansão da educação terciária foi acompanhada por um processo de desconcentração do ensino superior no Brasil.

Essa descentralização fica clara quando se observa que o segundo agrupamento de municípios onde a população tem maior escolaridade também está no interior, na região de Maringá (Noroeste), onde 13 cidades aparecem na classificação. O recorte do Noroeste inclui as regiões imediatas de Cianorte, Umuarama e Campo Mourão. Maringá, onde 30,56% da população possui diploma de graduação, figura na segunda colocação do ranking paranaense, atrás apenas de Curitiba (33,86%).

A Região Oeste do Estado fecha o pódio com dez cidades na lista, incluindo Cascavel e Foz do Iguaçu. As outras 11 do Top 50 estão divididas entre as regiões de Curitiba, Sudoeste, Centro-Sul e Campos Gerais.

Em um estudo denominado Desenvolvimento Regional no Brasil - políticas, estratégias e perspectivas, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) reconhece as instituições de ensino superior como órgãos cruciais para os sistemas de inovação.

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| Foto: Uenp/Divulgação

Segundo o instituto, as atividades intrínsecas de pesquisas básicas e aplicadas, de propagação de conhecimento científico e tecnológico, e de formação e qualificação de recursos humanos estão amplamente relacionadas à evolução e à trajetória do progresso técnico e, consequentemente, ao desempenho das empresas e ao avanço da economia como um todo.

O papel do ensino superior no desenvolvimento econômico contemporâneo, afirma o estudo, se concretiza na criação, aperfeiçoamento e aplicação de conhecimento, “particularmente por meio da pesquisa e desenvolvimento, do aumento do contingente de pessoas altamente qualificadas e da difusão do saber através de redes de inovação”.

A produção e disseminação de conhecimento científico e tecnológico por meio do ensino e da pesquisa, aponta o Ipea, gera “encadeamentos para frente”, capazes de transformar estruturalmente as bases econômicas e produtivas da região. Mudanças que afetam, especialmente, o mercado de trabalho, que passa a contar com mais profissionais altamente qualificados.

UEL

A reitora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Marta Favaro, evidencia a história do ensino superior em Londrina, que antecede a criação da universidade. Embora a instituição complete 55 anos em 2025, a oferta do ensino terciário no município começou ainda na década de 1950. A criação da UEL atendeu a uma demanda da sociedade e se deu em 1970, a partir da junção de cinco faculdades isoladas. Desde então, a universidade já formou mais de 90 mil profissionais. Hoje, mais de 80% dos alunos matriculados nos 53 cursos de graduação são do Paraná e grande parte deles, de Londrina e região.

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| Foto: Agência UEL/AEN Arquivo

“Quando as universidades estaduais foram constituídas, havia um projeto de interiorização do ensino superior. A principal referência era a capital”, relembrou Favaro. "Esse processo de interiorização favorece a busca do ensino superior, além da formação básica. Falando especificamente das universidades públicas estaduais, com exceção da UEL, as outras são multicampi. Temos possibilidade de ter acesso ao ensino superior em todas as regiões do Paraná. Se considerarmos as universidades tecnológicas e a federal (UFPR), que tem campus avançado, temos, no Paraná, uma grande concentração no sentido de oferta descentralizada de acesso ao ensino superior", ressaltou a reitora.

Os benefícios do acesso mais amplo ao ensino terciário, apontou Favaro, têm um enorme impacto regional porque gera economia e desenvolvimento a partir da formação de uma força de trabalho mais qualificada, de todo o trabalho de pesquisa, tecnologia e inovação produzido no ambiente acadêmico e dos projetos de extensão que atendem a comunidade. Além dos mais de 50 cursos de graduação, a UEL conta com quase 90 cursos de mestrado e doutorado e laboratórios que prestam serviços ao setor produtivo local, às empresas e à área de serviços em geral. “A condição de formação impacta diretamente no desenvolvimento econômico a região. Para além disso, temos a alta tecnologia oferecida no serviço que prestamos no HU (Hospital Universitário), na Clínica Odontológica e também na área de cultura.”

A análise da reitora corrobora a avaliação dos benefícios advindos da descentralização do ensino superior feita pelo Ipea, que ao mencionar os “encadeamentos para frente” lembra que os efeitos são sentidos no longo prazo, à medida que afeta a região de forma gradual e acumulativa ao promover uma transformação econômica e social e influenciar de forma decisiva todo o desenvolvimento regional. A disseminação dos espaços de formação superior, ressalta o instituto, fixa condições promissoras para um ciclo prolongado e autorreforçador de desenvolvimento econômico e social das regiões onde essas instituições estão sediadas.

CORNÉLIO PROCÓPIO

No Norte Pioneiro, Cornélio Procópio, com 47.840 habitantes, desponta como um exemplo de como a presença das instituições de ensino superior contribuem não apenas para a melhora do nível educacional da população, mas para todo o avanço econômico e social. O ponto decisivo para o impulso a esse processo de expansão ocorreu em 1999, quando a unidade do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica) instalada no município passou a ofertar ensino superior na área de tecnologia, e mais tarde, em 2005, quando por iniciativa do governo federal, as unidades do Cefet foram transformadas em campus da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná). A medida resultou no aumento dos cursos de graduação, com a abertura das faculdades de engenharia, e na ampliação do quadro de servidores.

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| Foto: Gustavo Carneiro/Arquivo Folha

Atualmente, o campus da UTFPR de Cornélio Procópio disponibiliza oito cursos de graduação e o diretor do campus, Márcio Jacometti, afirma que a taxa de ocupação dos egressos da instituição é de cerca de 90%. “A gente tem uma boa empregabilidade. Os alunos são procurados pelas empresas.”

Embora a maioria dos graduados seja absorvida por empresas de outras regiões e também do exterior, Jacometti ressaltou que desde 2002 o campus da UTFPR tem ajudado a formar novas empresas em Cornélio Procópio e região. “A gente tem as incubadoras que, na fase um, geram projetos de startups e na fase dois, as empresas se estruturam para atuar na região. Muitas empresas surgiram porque a universidade está instalada no município”, disse o diretor, destacando a contribuição da instituição para o fortalecimento do empreendedorismo regional.

Agora, a UTFPR em Cornélio Procópio trabalha para conseguir dar continuidade ao projeto de implementação do Parque Tecnológico. A estrutura será instalada em um terreno de 120 mil metros quadrados às margens da BR-369, doado pelo município. A construção começou a ser executada em 2019, mas foi suspensa por falta de verba. O projeto é considerado fundamental para acelerar o desenvolvimento de empresas e, por consequência, de toda a economia local. “A universidade, sozinha, é uma das três hélices do desenvolvimento. Precisa também do setor produtivo e do governo”, disse Jacometti.

O prefeito, Raphael Sampaio (PP), calcula que seriam necessários cerca de R$ 20 milhões para a execução da primeira fase, que compreende o prédio principal e outras obras do entorno. Mas como é um projeto gerido pela UTFPR, a verba deve ser repassada pela instituição. A direção da universidade e a prefeitura tentam levantar o dinheiro junto a parlamentares eleitos pela região, mas ainda não há uma estimativa de quando a primeira etapa estaria concluída. Para que o projeto integral saia do papel, seriam necessários em torno de R$ 100 milhões.

Sampaio reconhece que o fortalecimento das instituições e equipamentos mantidos pelas universidades instaladas no município é de fundamental relevância para o progresso do município. “Cornélio sempre foi uma cidade eminentemente agrícola e tinha sofrido um baque na cafeicultura, nossa principal cultura, em razão da geada de 1975. Os agricultores passaram a cultivar outros produtos agrícolas que não exigiam tanta mão de obra e a cidade, pujante, que crescia, foi encolhendo. Quando surgiu a universidade federal tecnológica, a gente sempre acreditou que ela seria a locomotiva do crescimento e desenvolvimento.”

ECONOMIA AQUECIDA

Além da UTFPR, o prefeito cita a UENP (Universidade Estadual do Norte Pioneiro) e outras instituições privadas de ensino superior que mantêm na cidade ensino presencial e a distância, como impulsionadoras do desenvolvimento local. “Houve um boom imobiliário, com alugueis, houve um aquecimento na economia como um todo, com o consumo de alimentos e tudo o mais. São muitos alunos. Mas a gente sempre entendeu que a universidade poderia propiciar muito mais porque, principalmente a UTFPR, produz profissionais de excelência e houve um trabalho de incubadoras pela universidade que fez com que surgissem empresas em Cornélio com muito potencial. Desde que assumimos a prefeitura, procuramos esse contato com a UTFPR porque entendemos que temos que fazer grandes parcerias”, disse Sampaio.

O município alimenta a expectativa da criação de duas faculdades de medicina, uma pela iniciativa privada, já autorizada pelo governo federal, e outra que seria mantida pelo governo do Estado. Mas as conversas ainda estão acontecendo.

O desafio, por ora, é reter os talentos que se formam nas universidades locais. “Há um ambiente propício ao crescimento de empresas que possam acolher a mão de obra que se forma aqui”, frisou o prefeito. “Hoje, produzimos profissionais de excelência, uma mão de obra extremamente qualificada, que vai embora por falta de oportunidades. Isso se deve muito por falta de políticas públicas para atrair empresas para fomentar o desenvolvimento. Tem que ampliar a incubadora, fazer com que o Parque Tecnológico saia do papel e a gente fazer com que os alunos empreendedores, com grandes ideias que nascem e florescem dentro da cidade, permaneçam aqui e temos que atrair novos alunos.”

UENP

O reitor da UENP, Fábio Antonio Néia Martini, disse que a presença de municípios do interior que abrigam campus da universidade na lista das 50 cidades paranaenses com população com maior nível de escolaridade é a prova de que a instituição "está no caminho certo", cumprindo sua missão como universidade e contribuindo para o desenvolvimento regional. Além de Cornélio Procópio, estão no ranking Bandeirantes e Jacarezinho, onde os índices da população com diploma de ensino superior são de 18,84% e 18,80%, respectivamente. As cidades do Norte Pioneiro ocupam a 26ª e a 27ª posições na lista.

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| Foto: Uenp/Divulgação

No período de 2010 a 2023, os três campus da Uenp no Norte Pioneiro - Jacarezinho, Bandeirantes e Cornélio Procópio - formaram 11.245 profissionais. "Acredito que o investimento realizado entre 2022 e 2025 pelo governo do Paraná, através da Seti (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) nos consolidará como referencia em ensino, pesquisa e extensão, trazendo ainda mais desenvolvimento para nossa região."

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