Deputado acusa irregularidades na Vale
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quinta-feira, 06 de março de 1997
Agência Estado, de Brasília 
O coordenador da Comissão Externa da Câmara que avaliou o processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce, deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), acusou ontem o banco de investimentos Merrill Lynch de ter beneficiado a mineradora sul-africana Anglo American - que assessora como proprietária de uma corretora de valores - ao elaborar o modelo de venda da empresa.
Segundo informações colhidas pelo deputado, a Merrill Lynch adquiriu 51% das ações da Smith Borkum Hare (SBH) - corretora privilegiada da Anglo American - em novembro de 1995, época em que ganhou a concorrência para participar da avaliação e da elaboração do modelo de venda da Vale. Em fevereiro, após ter conhecimento da data de publicação do edital de privatização, a Merril Lynch comprou os 49% restantes das ações da SBH.
O coordenador da comissão afirmou que as condições consideradas excludentes do edital publicado anteontem podem ser atribuídas à utilização de informação privilegiada pela Merrill Lynch. As cláusulas favorecem a Anglo American por estabelecerem condições de exclusão aos seus concorrentes, acusou Teixeira. Uma empresa não pode ser ao mesmo tempo consultora do processo de privatização e ter negócios com uma possível compradora da Vale, afirmou.
Urânio Teixeira considerou também bastante grave a ausência de informações sobre a existência de jazidas de urânio em Carajás (PA) no data-room montado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para atender aos candidatos à compra da Vale. As jazidas foram detectadas pela comissão em visita que os deputados fizeram ao Pará, acompanhados de técnicos da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo relatório técnico dos especialistas da Coppe, a presença de cobre, ouro, prata e urânio em Carajás lembra a jazida australiana de Olympic Dam, que possui reservas de 2 Gt (duas gramas por tonelada). Tivemos a confirmação da presença do urânio na segunda-feira passada, e agora temos dois grupos de advogados em São Paulo e no Rio de Janeiro analisando as consequências da presença de jazidas desse mineral estratégico em uma área que será privatizada, informou Teixeira.
O relatório final da comissão externa, aprovado ontem, condena a privatização da Vale. Sem qualquer margem de dúvida e sob todos os pontos de vista pelos quais se examine a questão, a comissão conclui que não há qualquer razão técnica, econômica, mercadológica, administrativa, financeira, estratégica ou de qualquer outra natureza que justifique a desestatização, dizem os deputados da comissão no relatório. O que está em curso somente encontra justificativa em razões de natureza ideológica, acusam.
Titânio Os deputados também queixaram-se, no relatório, da ausência de informações no data-room do BNDES sobre as reservas de titânio da Vale. De acordo com o texto aprovado pela comissão, o titânio pode ser considerado um dos metais do futuro, por causa de suas potenciais aplicações nas indústrias química, naval, aeroespacial e nuclear. Os deputados disseram ainda que despertaram atenção as visitas ao data-room de técnicos do grupo sul-africano Gencor, maior produtor mundial de titânio.


