Depois da crise instalada, governo investirá R$ 13 bi
Os investimentos do governo em geração de energia até 2003, contando as verbas da Petrobrás, Eletrobrás, Furnas e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), devem ficar em cerca de R$ 13 bilhões. O esforço para evitar a repetição, em 2002 e 2003, da drástica crise energética atual irá consumir quase um quinto dos recursos arrecadados com o programa de privatização federal em uma década, de 1991 a 2000. Neste período, as vendas de estatais renderam US$ 27,4 bilhões (R$ 64,6 bilhões, ao câmbio atual), segundo levantamento do governo.
A soma, apesar de vultosa, ainda não é suficiente para garantir uma situação confortável para os próximos anos. Para André Valle, coordenador do MBA de Energia da Fundação Getúlio Vargas, o governo demorou muito para acelerar os investimentos. Problema financeiro nunca houve, porque as empresas do setor são muito lucrativas. A questão é de cenário. Faltou um gerente, um síndico do governo que brigasse até com a equipe econômica para garantir os investimentos, uma espécie de Serjão do setor elétrico que pudesse definir regras e atrair o setor privado, disse, referindo-se à atuação que teve Sérgio Motta nas telecomunicações.
O BNDES está agora concentrando o maior esforço na liberação de verbas. O banco já desembolsou R$ 4,35 bilhões para obras no setor de energia (de 96 a 2001) e tem engatilhados financiamentos de R$ 4,1 bilhões para este ano. Os empréstimos incluem até projetos com participação de estatais, como Petrobrás e Eletrobrás. Não haverá nenhuma discriminação. Estamos agilizando e priorizando qualquer coisa que diga respeito a aumento de oferta, afirma o diretor de Infra-Estrutura do banco, Otávio Castelo Branco. Até dois meses atrás ele ocupava a presidência do banco JP Morgan e agora está à frente da equipe que analisa os projetos de eletricidade.
Castelo Branco acredita que chegará ao fim do ano com o desembolso para o setor representando pelo menos R$ 8,5 bilhões, o dobro do previsto. O banco participa apenas de quatro dos 49 projetos de termoelétricas do programa prioritário. Esperamos que, com as facilidades e a definição de entraves como o preço do gás, todos os projetos venham para o BNDES, afirma. O banco aprovou financiamentos no total de R$ 8,5 bilhões para investimentos totais de R$ 17,7.
A Petrobrás, que participa do programa térmico, está destinando cerca de R$ 2 bilhões à antecipação da operação de dez termoelétricas nas quais divide investimento com empresas privadas. A empresa está participando com 30% em empreendimentos orçados em R$ 6 bilhões. Seis usinas Fafen (BA), Pitanga (PR), Ibirité (MG), Piratininga (SP), Refap (RS) e Três Lagoas (MG) entram em operação ainda este ano, a maioria com potência reduzida. As outras quatro começam a produzir no primeiro trimestre do ano que vem. A estatal está sendo usada, também, como um instrumento eliminar o risco cambial do preço do gás, que afastava os investimentos privados.
As térmicas dependem basicamente do gás importado da Bolívia (80% do fornecimento total). A Petrobrás compra o produto em dólar, mas o venderá em reais, por imposição do governo, assumindo o prejuízo em caso de variação cambial. A intenção é que, ao fim de um ano, a verba volte aos cofres da estatal, com o consumidor arcando com o prejuízo, depois do reajuste do produto.
Furnas está destinando, para este ano e o que vem, R$ 2,6 bilhões em projetos de termelétricas e linhas de transmissão. As usinas já existem e estão tendo sua capacidade de geração ampliada. Entre os projetos está a capacitação da subestação de Tijuco Preto, em São Paulo, que irá possibilitar o aumento da capacidade de transporte de eletricidade da maior hidréletrica brasileira, a Usina de Itaipu, na Região Sul, para o Sudeste. Mas, mesmo, a determinação do governo de antecipar metas está esbarrando em dificuldades operacionais. Os técnicos de Furnas já avisaram em relatório, por exemplo, que não será possível atender à solicitação do Operador Nacional do Sistema (ONS) para energizar reatores de Tijuco Preto até dezembro de 2001. Em esquema de emergência, a obra, que garante o controle de tensão para o aumento da capacidade de transporte do tronco de Itaipu, só ficará concluída em fevereiro de 2002. (Agência Estado)





