Democracia não consegue vencer pobreza
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2000
Marcela Valente Inter Press De Estocolmo 
O debate internacional sobre a governabilidade nos países mais pobres cede espaço, timidamente, a uma discussão, cada vez menos eufemística, sobre porque a democracia não consegue reduzir a pobreza. O Banco Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) proporcionaram, este mês, a realização de um fórum em Estocolmo, a fim de que os participantes discutissem as barreiras e estratégias que se devem seguir para reduzir a pobreza em um regime democrático.
Um amplo grupo de acadêmicos, políticos e líderes da sociedade civil, procedentes de diferentes regiões do mundo, elaboraram uma série de recomendações para lutar contra a corrupção e promover uma maior participação dos pobres em governos democráticos.
Convocados pelo Instituto para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA), dirigentes da Europa oriental, Ásia, África e América Latina identificaram os entraves que impedem os mais pobres de gozar dos benefícios da democracia, e traçaram estratégias para aumentar a sua participação.
Já não restam inimigos no mundo, assinalou o secretário-geral do IDEA, Bengt Save-Soderberghh, ao abrir o 5º Fórum pela Democracia dessa organização. Agora, vemos uma grande ameaça no abismo existente entre os ideais da democracia e a sua prática, acrescentou.
O Fórum, desta vez, teve como lema Democracia e pobreza: um elo perdido?. Ao fim de dois dias de exposições e debates, Save-Soderberg considerou que, ante a grande quantidade de propostas dos participantes, a interrogação poderia ser tirada do lema. Ele expressou a sua satisfação com os resultados do encontro. Elaboramos uma agenda interessante de temas e desafios futuros sobre uma relação que, como assinalamos no título, não é nada fácil, reconheceu.
De acordo com o IDEA, nas últimas duas décadas, cresceu dramaticamente o número de países que adotaram a democracia, sendo que, na última, registrou-se um total sem precedentes de nações em que os cidadãos votaram pela primeira vez ou o fizeram depois de longas ditaduras. Mas, a pobreza continua aumentando em todo o mundo. Mais ainda, Save-Soderbergh admite, há países que conseguiram aliviar a pobreza fora do âmbito da democracia, e, ao contrário, modernas democracias viram aumentar o número de pobres, de excluídos, de violência e de corrupção.
Não faltaram os que acusaram de favorecimento os ditadores que enfrentam o desafio de diminuir a pobreza ou atender melhor as necessidades sociais, em países onde há décadas não se elege democraticamente as autoridades. Nesse sentido, um dos assistentes, o ex-presidente equatoriano Oswaldo Hurtado, comentou que o fórum teve maior representação de organismos da sociedade civil que de políticos, e, portanto, houve falta de realismo nas propostas que desconhecem as pressões fiscais que sofrem os governos.
Do lado das organizações não-governamentais, veio a resposta de que são altos os graus de corrupção registrados em muitos governos de países pobres, enquanto os governos de democracias fortes foram acusados da prática de subornos.


