Demitidos protestam com 'ceia de Natal'
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quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
Agência Estado 
O Natal dos Demitidos, realizado ontem no pátio da Ford, transformou-se no maior ato político já realizado pela oposição por mudanças no rumo da economia brasileira desde que eclodiu a crise financeira internacional, no segundo semestre de 1997. A montadora demitiu 2,8 mil de seus 6 mil empregados na véspera do Natal, daí o simbolismo da festa temporã, promovida pelo Sindicato dos Metalúrgicos.
Os trabalhadores levaram suas esposas e filhos, num total de mais de 7 mil pessoas, e participaram de ato ecumênico na montadora, de uma ceia simbólica, com pão e leite, de uma passeata que paralisou por 30 minutos uma das pistas da Via Anchieta e finalmente de um protesto em frente de uma igreja em São Bernardo do Campo.
Não faltaram cenas comoventes na manifestação. O demitido Antônio Francisco de Carvalho, de 37 anos, 14 de Ford, levou a esposa Maria do Carmo e a filha Camila, de apenas 10 meses. Pai de quatro filhos, Antônio não sabe como bancará aluguel, pensão para uma ex-mulher, medicamentos e alimentos.
Para o presidente nacional do PT, José Dirceu, o Brasil Real manifestou-se ontem no ABC. Temos dois Brasis: o dos que querem juros altos, dependência do capital especulativo, uma economia voltada exclusivamente para a importação e um câmbio supervalorizado, e o outro Brasil, dos que querem o contrário, com ênfase na produção e emprego.
O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que sindicalistas precisam transformar o desemprego numa questão política, para forçar a equipe econômica a mudar de rumo. Lula traçou um cenário sombrio para o futuro, de aumento brutal do desemprego e desindustrialização do Brasil. Ele disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso está escondendo a realidade. O Brasil está quebrado há muito tempo, declarou. O governo sabe disso mas não fala nada porque tem o rabo e o focinho preso à agiotagem internacional.
O presidente nacional da CUT, Vicente Paulo da Silva, acusou a Ford de não ter responsabilidade social. Ele apresentou o lucro da companhia no mundo para provar que havia condições de manter os empregados. Segundo ele, a montadora teve faturamento global de US$ 137 bilhões em 1995 e lucro de 23% sobre o montante, que saltou para US$ 153 bilhões em 1997, com lucro de 30%. Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, hoje os empregados demitidos voltarão a ocupar a fábrica, apesar de a Ford ter informado que está providenciando o depósito das indenizações.


