Demitidos da Ford podem ocupar fábrica
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terça-feira, 05 de janeiro de 1999
Agência Estado 
Trabalhadores demitidos da Ford devem ocupar hoje as instalações da fábrica em São Bernardo do Campo para reivindicar que a direção da empresa volte atrás na decisão anunciada às vésperas do Natal de cortar 2,8 mil pessoas do seu quadro de pessoal. Ontem o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, pediu aos demitidos que compareçam à assembléia marcada para hoje, às 6 horas, prontos para trabalhar. A idéia é entrar na fábrica, ligar as máquinas e cumprir o horário normal de trabalho.
Um grupo de trabalhadores fará piquetes em todos os portões para evitar que os não demitidos entrem para trabalhar. A direção do sindicato quer a participação de todos na assembléia para, só depois, entrarem conjuntamente na fábrica. A assessoria de imprensa da Ford informou que a direção da empresa só deve se pronunciar hoje. Também afirmou que, até o final da tarde de ontem não havia solicitado a presença de policiais nas instalações.
Marinho disse que, desde o comunicado das demissões, no dia 18, vem tentando se reunir com representantes da empresa, mas não teve qualquer retorno. O presidente da montadora, Ivan Fonseca e Silva, também teria sido procurado pelo governador em exercício, Geraldo Alckmin, pelo prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, e pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, mas não foi localizado durante os feriados de fim de ano.
Outras medidas que podem ser adotadas a partir de hoje são passeatas pelas principais ruas da cidade ou até mesmo o início de uma greve. Os cerca de 3,4 mil trabalhadores que não foram demitidos deveriam ter voltado ontem do período de licença remunerada iniciado no dia 16, mas a Ford adiou o retorno para hoje justamente para esvaziar o ato marcado para ontem, segundo Marinho. Mesmo assim, cerca de 2,5 mil pessoas participaram da assembléia nos portões da fábrica, a maioria de pessoas que recebeu carta informando da demissão.
Eles encontraram os portões que dão acesso ao pátio da fábrica trancados. Um grupo de trabalhadores quebrou a corrente e o cadeado, liberando a entrada para que a assembléia fosse realizada no local. Não houve reação por parte dos seguranças da montadora. A Ford já montou um esquema de prevenção contra uma possível ocupação e transferiu os carros que estavam estocados no pátio para outras áreas. Também alugou salas e hotéis na região e na Capital para que seus executivos e o pessoal de setores administrativos possam trabalhar.
Marinho disse que o sindicato não vai aceitar as demissões e quer negociar com a empresa medidas como ampliação do banco de horas, redução da jornada de trabalho e corte de custos. Em sua opinião, os trabalhadores não podem ser responsabilizados pelo que ele considera incompetência da empresa em se adaptar ao mercado. Segundo ele, a fábrica de São Bernardo, onde são produzidos os modelos Ka, Fiesta e Courier, foi preparada para uma produção que garantisse 17% do mercado de veículos. Como a montadora fechou o ano com 12% de participação e não prevê mudanças no curto prazo, está alegando excesso de pessoal. Ao invés de demitir trabalhadores, a empresa deveria se juntar a nós para exigir do governo federal medidas para a retomada do mercado, afirmou Marinho.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, disse ter estranhado o comportamento da Ford, que anunciou as demissões sem antes negociar com os funcionários. Foi uma atitude atípica da empresa que, em toda a sua história, sempre criticou medidas desse tipo, disse ele, acrescentando que outras montadoras, como a Volkswagen e a Mercedes- Benz, estão negociando a redução da jornada e saídas voluntárias com seus funcionários.
O coordenador da Comissão de Fábrica da Ford, Rafael Marques, afirmou que serão realizados diferentes tipos de manifestação até que a empresa negocie os cortes. Estamos preparados para um longo período de luta, sem nenhum tipo de limite, avisou, acrescentando que os trabalhadores podem ir contando com uma greve longa, se for necessário.
Na fábrica de motores e transmissões, onde a Ford está negociando a demissão temporária de 500 dos 1,2 mil trabalhadores, não houve acordo na reunião realizada ontem com o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté.
Os trabalhadores querem um acordo semelhante ao da Volkswagen, que prevê redução de jornada e salários, e nova reunião será realizada amanhã. Na unidade do bairro do Ipiranga, que produz caminhões, também deverá ocorrer uma reunião nesta semana para discutir excedente de pessoal.


