Rio de Janeiro - As vendas industriais de junho caíram 3,11%, na comparação com o mesmo mês do ano passado, de acordo com pesquisa divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na avaliação do coordenador de Política Econômica da instituição, Flávio Castelo Branco, a demanda doméstica está ''anêmica'' e, se nada for feito, o País corre o risco de fechar o ano com venda real negativa na indústria.
Com a queda de junho, a terceira mensal consecutiva, as vendas do setor fecharam o segundo trimestre 2,82% abaixo do mesmo período em 2002, depois de terem crescido 4,71% nos primeiros três meses deste ano. Com relação ao mês anterior, a retração foi de de 1,47%, pior desempenho para um mês de junho desde 1995.
Nos dois últimos trimestres de 2002, o crescimento havia sido, respectivamente, de 3,93% e de 7,38%. Apesar da queda de abril a junho, o primeiro semestre deste ano ainda acumula crescimento de 0,77%. Já há sinais, contudo, de desaceleração no mês de julho, antecipa o coordenador da CNI.
O quadro é mais grave, segundo o economista, porque a indústria entrou no período de maior atividade sazonal (de julho a outubro) em ''condições desfavoráveis'', entre elas o baixo poder de compra do consumidor, juros altos, pouca liquidez e baixa perspectiva de investimentos. ''O quadro não está favorável. É preciso uma injeção, uma transfusão nessa demanda anêmica'', diz Castelo Branco. A última retração anual de vendas foi em 1998 (-1,58%).
Os indicadores de junho também recuaram na comparação com maio. Assim, as vendas variaram - 1,47%, emprego - 0,14%, horas trabalhadas - 0,43%. O uso da capacidade instalada caiu de 79,6% para 79,2%. Castelo Branco ressaltou que, pela primeira vez no ano, houve queda no nível de emprego. Segundo ele, isso significa que os empresários que estavam postergando demissões, na expectativa de uma retomada da atividade, cansaram de esperar e adotaram medidas internas de ajustes. ''A tendência não deve ser reverter isso tão rápido. Só depois de reação da demanda doméstica, o que pode ocorrer no último trimestre do ano'', disse o economista.
O coordenador da CNI avalia que na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deverá haver um corte maior da taxa Selic. Castelo Branco qualificou o corte de 1,5 ponto porcentual na última reunião como ''bastante sensível, quase simbólica''. Ainda assim, ele analisa que reduzir os juros não basta para o crescimento sustentado e defende que é preciso retomar investimentos e os níveis de confiança na economia.
A trajetória de desaceleração da atividade industrial vem desde o final de 2002 e reflete ''uma dimensão dos impactos que a política monetária restritiva vem causando à atividade econômica''. Com as quedas de vendas, informa o economista, o nível de faturamento voltou ao nível do fim de 2001.

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