Delfim prevê oito meses de dificuldades
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de novembro de 1998
Pedro Ribeiro Especial para a Folha 
O Brasil precisa investir em torno de 25% - cerca de US$ 220 bilhões por ano - do seu PIB nos próximos cinco anos para que haja, efetivamente, um crescimento anual de 6% a 7%. Hoje, essa taxa é de 1% e no próximo ano deverá ser negativa. A observação foi feita ontem, em Curitiba, pelo ex-ministro da Fazenda e deputado federal Antonio Delfim Netto (PPB-SP), durante palestra a empresários paranaenses no ciclo de debates Cenário 2010. O evento foi organizado pelas Faculdades Positivo, Gazeta Mercantil e Conselho Regional de Economia (Corecon-PR), com apoio da Folha do Paraná/Folha de Londrina e Rede Paranaense de Televisão.
O nível atual de investimentos - em torno de 17% a 18% do PIB de US$ 900 bilhões - não cresceu e o governo vem acumulando déficits de conta corrente, disse Delfim Netto, que acredita na superação da crise, embora não descarte problemas de ordem social, principalmente com o aumento do desemprego.
A situação econômica brasileira, embora desde setembro estagnada em nível de investimentos no setor produtivo, tende a melhorar depois da aprovação das reformas e da assinatura do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), previu o ex-ministro. Ele criticou, no entanto, o pacote fiscal que, na sua opinião, cria mais impostos (em cascata), inibindo o setor de exportação e endividando estados e municípios, com o aumento das despesas e redução do ritmo de atividade e de arrecadação. Haverá aperfeiçoamento com a discussão no âmbito do Congresso Nacional, garantiu. O apoio do FMI motivará um novo clima para nossa credibilidade externa.
Imposto toloComo sugestão, Delfim Netto apóia o aumento de imposto sobre a gasolina. Se esse produto tiver um reajuste de R$ 0,30, arrecadará a mesma quantia que a CPMF, que considero um imposto tolo, disse. Delfim lembrou que não se pode criar impostos que venham a penalizar o exportador. Explicou que em 1993 o volume importado cresceu assustadoramente, em torno de 300%, enquanto as exportações não cresceram, mostrando-se o setor menos rentável da economia brasileira. Essa performance ocorreu devido aos seis congelamentos de câmbio, com os quais o País deixou de exportar US$ 40 bilhões, quando o objetivo era exportar US$ 100 bilhões.
O déficit público, que de janeiro de 1996 a janeiro de 1997 teve queda, acabou dando uma louca, disse ao lembrar que isso ocorreu devido ao custo da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Quanto à desvalorização cambial, lembrou que o Brasil é o único no mundo a adotar tal medida. Em relação aos Estados Unidos, a desvalorização foi de 10%, mas, em comparação à Comunidade Européia houve um saldo de 2,9% e de 39,1% em relação aos países asiáticos.
Caminho mais curtoDelfim Netto prevê mais oito meses de dificuldades. É preciso, nesse período, convencer as grandes potências que o Brasil é um país emergente e não imergente, disse. Dois problemas são insustentáveis em sua opinião: a taxa de equilíbrio externo e o déficit em conta corrente. Para resolver isso é necessário adotar uma drástica redução do dispêndio e depois uma ampla reforma cambial. O resto é conversa pra boi dormir, ironizou.
Num tom bastante otimista, o deputado federal que se diz ex-economista tranquilizou as cerca de 500 pessoas que assistiam à sua palestra no Graciosa Country Club. Não há motivo para perder o controle, garantiu, ao afirmar que o Brasil aguenta tudo. A começar pelos 60 meses ao longo dos quais o País teve a maior taxa de juros real do mundo. Mas vai encontrar o caminho certo, disse. Se for inteligente, o caminho mais curto.


