Rio de Janeiro- O cenário internacional ainda turbulento, aliado a uma redução no ritmo da atividade industrial levaram à deflação de 0,58% na segunda prévia do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M). Segundo o coordenador de Análises Econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, esses fatores conduziram a queda de 1,37% nos preços industriais atacadistas, responsáveis pela taxa negativa de 1,09% no Índice de Preços por Atacado (IPA) - que representa 60% do IGP-M, e foi a maior contribuição para a formação da taxa da segunda prévia.
Para o economista, há chance de o indicador fechado de janeiro também apresentar deflação, justo em um mês com inflado por questões sazonais, como o pagamento de mensalidades escolares, por exemplo. Se isso ocorrer, será a primeira deflação registrada para um mês de janeiro na história desse índice, iniciada em 1989.''Isso parece mostrar que o caminho para a inflação nos próximos meses está bastante desobstruído'', disse.. Por isso, na avaliação do economista, esse tipo de percepção poderia abrir espaço para o BC proceder cortes mais ''ousados'' na Selic, até ontem em 13,75%, embora reconheça a postura conservadora do BC.
Na segunda prévia, o economista explicou que o setor industrial no atacado, atualmente, é influenciado por dois fatores. O primeiro é a recessão mundial, causada pela crise global, e que derrubou os preços das commodities no exterior, e de alguns outros itens no mercado internacional, relacionados ao mercado doméstico brasileiro. Essa justificativa pode explicar as quedas, no atacado, nos preços de produtos de origem química (-3,12%); produtos químicos orgânicos; derivados de petróleo (-1,44%) e produtos siderúrgicos (-0,89%), na segunda prévia do IGP-M.
Mas, embora o economista classifique como preponderante a influência do cenário internacional nas quedas registradas nos preços atacadistas, dentro do setor industrial, ele admite que somente esse fator não explica a abrangência das deflações. ''Também há sinais de quedas de preços que foram provocadas por recuo na atividade industrial doméstica'', comentou.
O exemplo mais forte desse recuo na atividade é o do setor automotivo. Somente os preços de automóveis para passageiros caíram 9,41% na segunda prévia do IGP-M em janeiro, após subirem 0,82% em igual prévia em dezembro. Quadros lembrou a recente redução do IPI para automóveis, que ajudou a derrubar os preços dos veículos no início do ano.
Mas observou que a magnitude da queda de preços dos automóveis foi muito mais intensa do que a que poderia ser gerada pela redução no imposto. ''O que ocorre no setor automotivo tem mais a ver com a situação do setor, no mercado doméstico, do que com o cenário internacional'', disse.
Ele lembrou o recuo nas produções de veículos anunciadas recentemente, e a menor oferta de crédito, que levaram a um cenário onde montadoras contam com estoques expressivos e recuo na demanda por veículos - o que gera despencada dos preços. Mas o economista negou que a abrangência nas quedas de preços industriais no atacado já seja indício de recessão forte na economia brasileira. ''O que está ocorrendo agora no atacado tem mais a ver com a recessão mundial do que com o cenário brasileiro'', disse.

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