Deflação ainda não é sentida pelo consumidor
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sexta-feira, 25 de julho de 2003
Francisco Carlos de Assis<br> Agência Estado 
São Paulo O consumidor, o mais interessado na queda dos preços, não tem sentido o reflexo da deflação mostrada pelos institutos de pesquisas de preços a partir de junho. Os especialistas têm explicação para isso. De acordo com o economista Juliano Cecílio, analista de inflação do Banco Safra, esta deflação não é forte o suficiente para ser notada pelo público geral. ''O IPCA de julho deverá ficar entre zero e uma pequena queda deflação de 0,10%. Se uma família gasta, por exemplo, R$ 1 mil por mês, sua economia será de apenas R$ 10. Mas para quem acompanha inflação, uma queda desta magnitude é grande'', afirma Cecílio.
Para a analista de inflação da Tendências Consultoria Integrada, Marcela Prada, a deflação registrada pelos últimos indicadores de inflação é explicada pela queda de alguns produtos. ''Há sim uma percepção de desaceleração generalizada dos preços. Mas parte dos preços ainda estão subindo, apesar disso ocorrer numa velocidade menor. Tanto que os núcleos dos indicadores estão rodando em volta de 0,50%'', lembra Marcela. Além disso, diz ela, os preços que caíram não têm peso muito forte no orçamento do consumidor.
Para o economista e coordenador dos Índices de Preços ao Consumidor (IPCs) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), André Furtado Braz, a questão é que ninguém tem a mesma inflação. ''Cada família tem um hábito de consumo diferente. Normalmente, os gastos são em insumos que nem sempre estão caindo. Podem estar estáveis ou subindo'', explica.
Braz lembra que a deflação registrada a partir de junho foi provocada, basicamente, pelos grupos alimentação e transportes. Nos alimentos, diz ele, as quedas vieram das hortaliças, frutas e legumes. ''O grupo alimentação pesa 27,5% no IPC-BR, mas muitas famílias concentram seus gastos em arroz, batata e carne. No grupo transportes, que pesa 13,73% na composição do IPC-BR, a queda veio da gasolina e álcool, com reflexo sobre o transporte individual. Mas grande parte das famílias não possui carros. Seus gastos são com transporte público'', diz Braz.
A analista Basiliki Litvac, da MCM Consultores, ressalta que o índice é uma cesta de consumo. Segundo ela, normalmente as pessoas guardam mais os preços que sobem. ''Os gastos com vestuário, por exemplo, subiram 5%, os gastos com telefone aumentaram 3%. Já as despesas com alimentação caíram 24%; todo mundo usa, mas o que fica na mente das pessoas são os aumentos'', diz Basiliki.
De acordo com Braz, outro fator que gera para o consumidor a sensação de que as informações passadas pelos indicadores de inflação não condizem com a realidade dos preços no varejo é a rigidez dos índices. ''Se o índice é rígido, o consumidor não é. Ele pode comprar mais, menos ou até deixar de comprar. Ele pode fugir da inflação ou não. Mas o instituto vai sempre coletar os mesmos preços'', explica Braz.
Outra coisa que confunde o consumidor, diz o economista da FGV, é a base de comparação. Por exemplo, o movimento forte de alta da inflação se deu do começo do ano para cá. ''Só que a queda não se dá com a mesma velocidade e nem sempre volta ao nível. Com isso, a base de comparação, em muitos casos, sempre será mais baixa, mesmo com as fortes quedas'', completa Braz.


