Déficit externo é o pior desde 1982
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sexta-feira, 16 de janeiro de 1998
Agência Folha Brasília 
Principal indicador das contas externas, o déficit em transações correntes fechou 1997 em 4,2% do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país). É o pior resultado desde 1982. Esse indicador é considerado importante porque revela o grau de dependência do País em relação ao capital externo. Quanto maior o déficit, maior a dependência.
O déficit de 4,2% do PIB significa que, em 1997, os gastos do Brasil em suas transações com outros países superaram as receitas em US$ 33,842 bilhões. Essas transações incluem o comércio exterior (exportações menos importações), os serviços (juros, remessa de lucros, turismo etc.) e as transferências unilaterais (dólares enviados ao País por residentes no exterior e vice-versa).
Os itens que mais pioraram em 1997 foram o turismo (aumento de 21% na despesa líquida, comparada com 1996), o déficit comercial (crescimento de 54,1%) e a remessa de lucros e dividendos (135,8%). O resultado das transações correntes revela a dependência do Brasil em relação ao capital externo porque, quando gasta acima das receitas, o País, para não perder dólares, precisa atrair investidores estrangeiros - que podem sair quando quiserem.
Em 97, o País não atraiu capital externo suficiente para cobrir o déficit corrente. Como resultado, as reservas totais do Banco Central caíram de US$ 60,11 bilhões, no final de 96, para US$ 52,173 bilhões. Considerando apenas os dólares prontamente disponíveis, a queda foi de US$ 59,039 para US$ 51,359 bilhões.
A vulnerabilidade é maior se o déficit é coberto com capital especulativo, como investimento que estrangeiros fazem em Bolsas ou na compra de títulos públicos. Em momentos de crise, o capital especulativo pode abandonar o país rapidamente. No primeiro pico do crash global, em outubro, investidores estrangeiros repatriaram US$ 9,4 bilhões. O País fica menos vulnerável quando financia o déficit com investimentos diretos, que é o capital que estrangeiros empregam na compra de empresas, privatização ou novas fábricas.
Com o resultado de 1997, o Brasil registra o terceiro ano consecutivo com alto déficit externo. A sequência de déficits externos foi iniciada com o Plano Real e rompeu uma tendência de equilíbrio que vinha desde 1984. Com exceção de 1986, ano do Plano Cruzado, a década de 80 e início dos anos 90 foram marcados por superávits (receitas maiores que despesas) ou pequenos déficits.
A manutenção de altos déficits, entretanto, nem sempre significa deterioração da economia. Tudo depende dos objetivos definidos pelo governo para a economia e da oferta de capitais externos. Durante o Plano Real, os altos déficits foram a forma usada pela equipe econômica para baixar a inflação e manter o crescimento da economia. Nos últimos anos, as importações e oferta de produtos estrangeiros ajudaram a manter os preços estáveis, e os investimentos de estrangeiros mantiveram o crescimento do País.
A crítica mais comum a esse modelo é a de que ele se torna arriscado quando mantido por muito tempo. A oferta de capitais externos pode se reduzir em tempos de crise e, nessa situação, o País pode ficar sem ter de quem tomar dinheiro para financiar o déficit.
Com o crash global, o governo tomou medidas para tentar reverter o déficit externo. A principal delas foi o aumento dos juros. Quando as taxas são elevadas, a economia cresce menos e cai o consumo - assim, as importações tendem a decrescer e sobram mais produtos para exportar. Também foram adotadas medidas para reduzir o turismo internacional.


