O déficit em transações correntes, indicador da dependência do País em relação aos capitais estrangeiros, voltou a crescer em outubro, atingindo 4,4% do PIB (Produto Interno Bruto, medida da produção nacional), no resultado acumulado em 12 meses. Esse é o maior déficit desde 1982, quando o Brasil atravessava a crise da dívida externa.
Com ele, fica mais difícil reduzir o déficit para 4,2% do PIB no término deste ano, conforme cenário traçado pelo governo no acordo com o FMI. Para 1999, a previsão é de déficit de 3,5% do PIB.
Dizer que o déficit atingiu 4,4% do PIB significa que, nos 12 meses encerrados em outubro passado, as despesas do Brasil nas suas transações comerciais e de serviços com os demais países superaram as receitas em US$ 34,525 bilhões.
Esse indicador é composto por três itens: a balança comercial (exportações menos importações), o balanço de serviços (juros, turismo internacional, remessa de lucros etc.) e as chamadas transferências (dinheiro remetido ao Brasil por residentes no exterior, sem relação financeira ou comercial). Teoricamente, a manutenção de grandes déficits em transações correntes tem dois efeitos principais, um positivo e outro negativo. O lado ruim é que, quando gasta acima das receitas nas transações com outros países, o Brasil é obrigado a recorrer a empréstimos ou investimentos estrangeiros para cobrir a diferença. Isso deixa o País vulnerável quando há crises internacionais e cessa o crédito externo.
O lado positivo é que, quando há déficit, o país está tomando recursos estrangeiros que, teoricamente, poderão financiar seu crescimento econômico. Desde o Plano Real o País registra déficits crescentes em transações correntes, que foram apontados como saudáveis pelo presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Para ele, é normal que países emergentes busquem capitais no exterior para financiar o crescimento da economia.
Os déficits em transações correntes cresceram com o Plano Real principalmente porque, a partir de então, a balança comercial começou a registrar resultados negativos, isto é, importações superiores às exportações.
Antes, o Brasil registrava superávits. Em 1993, por exemplo, o saldo foi de US$ 13,307 bilhões. Atualmente, a situação se inverteu. Nos 12 meses encerrados em outubro passado, houve déficit comercial de US$ 6,106
bilhões.
Assim, a balança comercial, que antes do Real servia para atenuar os resultados negativos no balanço de serviços, passou a ampliá-los. O balanço de serviços é tradicionalmente deficitário porque o Brasil é devedor internacional e também porque tem mais investimentos estrangeiros em seu território do que capitais de brasileiros investidos no exterior. Assim, os pagamentos de juros sobre as dívidas e de lucros e dividendos sobre os capitais são tradicionalmente superiores aos recebimentos, mesmo antes do Plano Real.
Em 1993, por exemplo, o país gastou US$ 8,453 bilhões líquidos em juros e mais US$ 1,805 bilhão em lucros e dividendos. Após o Real, essas despesas aumentaram. Nos 12 meses encerrados em outubro, os gastos com juros atingiram a US$ 11,891 bilhões, em decorrência principalmente do crescimento da dívida externa. No mesmo período, as remessas de lucros e dividendos somaram US$ 7,073 bilhões, pois cresceram os investimentos estrangeiros no país. Além disso, a crise internacional fez empresas anteciparem remessas de lucros ao exterior.

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