Agência Folha
O elevado déficit público será o vilão do novo sistema de metas inflacionárias, ou ‘‘inflation targeting’’, que deve ser anunciado hoje pelo governo. Essa é a avaliação dos economistas Gustavo Franco e José Júlio Sena, ex-presidente e ex-diretor do Banco Central, respectivamente. Ambos debateram o tema ontem.
O ‘‘inflation targeting’’ é o sistema de política monetária em que o governo usa os juros para manter a inflação dentro de uma meta preestabelecida.
‘‘É impossível manter a inflação baixa com um déficit fiscal elevado. Se continuar assim, não será possível cumprir as metas’’, disse Sena. Isso porque, disse ele, quando o governo precisar aumentar os juros para cumprir a meta, o déficit público explodirá. Apesar disso, Sena é a favor do modelo e acredita que as chances de sucesso são boas. ‘‘Pode funcionar, na medida em que o a equipe econômica se comprometa com isso e force o resto do governo a controlar o déficit.
Para Gustavo Franco, o sucesso do sistema que se inicia hoje está comprometido pelo desequilíbrio fiscal do governo. ‘‘Nenhum regime de política monetária ou cambial funciona bem em um cenário de déficit fiscal elevado. Por outro lado, todos funcionam razoavelmente bem com o lado fiscal em ordem’’.
Para ele, as metas de inflação são ‘‘uma discussão secundária’’. ‘‘Acho positivo que o Banco Central tenha um regime de política monetária definido, mas qualquer um estaria bom se as contas públicas estivessem em ordem’’. Franco foi mais longe e avaliou que o novo sistema pode acabar tendo o efeito oposto ao que se propõe. Para ele, há risco de o BC deixar adotar políticas antiinflacionárias porque a taxa está abaixo da meta. ‘‘E não estamos no ponto de relaxar no combater à inflação ainda’’.
Gustavo Franco se mostrou bastante crítico em relação ao sistema de metas de inflação. O mecanismo está sendo implantado para substituir a âncora cambial, abandonada com a liberalização do câmbio, que era amplamente sustentada por ele no governo.
Já José Júlio Sena posicionou-se totalmente a favor do novo modelo. ‘‘A mudança cambial não seria completa sem outra âncora para segurar a estabilidade. E o sistema de metas de inflação é a melhor alternativa para seguir na esteira do abandono do câmbio fixo’’, afirmou.

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