São Paulo - A ata da reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou um tom um pouco mais pesado que a decisão que o colegiado do Banco Central tomou na semana passada, quando a taxa básica de juros foi elevada em 0,75 ponto porcentual para 10,25 ao ano. A análise é do Departamento Econômico da Gradual Investimentos, formado pelo economista-chefe, Pedro Paulo Silveira, e pelo economista André Perfeito. Segundo eles, com as preocupações explicitadas no documento divulgado ontem, a decisão unânime dos diretores do BC ganhou um viés de alta. ''O que teve de previsível e tranquilo na decisão da taxa, ficou um pouco mais pesado na ata, conferindo certo viés altista na decisão unânime'', destacaram, em relatório a clientes e à imprensa.
Para os economistas, sem grandes surpresas, as preocupações dos diretores do Banco Central ''se focam'', no plano interno, no esgotamento da capacidade ociosa, que gera pressão sobre os fatores de produção. ''O que pode num cenário de demanda aquecida - e expectativas de inflação em alta - traduzir-se necessariamente em índice de preços mais altos'', lembraram. ''Todos estes elementos estão presentes em maior ou menor grau na economia brasileira atual. Do lado da demanda, podemos verificar este aumento na evolução do Consumo das Famílias divulgado pelo IBGE no conjunto das Contas Nacionais do 1º trimestre. Está no patamar mais alto da série'', citaram como exemplo.
De acordo com Silveira e Perfeito, após a desaceleração na atividade industrial motivada pelo o aperto das condições financeiras decorrentes da crise financeira originada nos Estados Unidos, a indústria brasileira evoluiu ''a passos largos'' e ''já atinge os antigos - e históricos - patamares de 2007 até meados de 2008''. ''Realmente, a situação merece atenção por parte dos formuladores da política monetária'', opinaram.
Os economistas ressaltaram, porém, que o cenário não pode ser avaliado somente com um viés de preocupação, já que o próprio BC lembra tradicionalmente que a política monetária tem ''certa defasagem'' entre o início do aperto e seu efeito na economia. Afora este detalhe também salientaram que o colegiado do BC usa as expectativas de mercado como ''bússola'' para saber onde apontar a taxa Selic.
Para Silveira e Perfeito, o País passou no início de 2010 por um ''susto inflacionário'', depois de reajustes pesados que foram observados em alguns preços de itens da cesta ao consumidor, especialmente no transporte urbano e nos alimentos in natura. ''Isto jogou para cima as expectativas dos economistas no início do ano, mas já está acomodado. Foi apenas um susto não um surto inflacionário. As estimativas de inflação pararam de subir e já estão até recuando nas medições recentes'', ponderaram.
De acordo com eles, um bom exemplo deste cenário é o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que apresentou taxa de apenas 0,03% na segunda quadrissemana de junho em São Paulo ante um resultado também baixo, de 0,08%, verificado na primeira leitura do mês. ''As expectativas (de inflação) vão ancorar e recuar nas próximas semanas. Neste contexto, o Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central terá um peso maior para saber o que o BC vê na trajetória recente dos preços no País'', afirmaram, referindo-se ao documento que a autoridade monetária deverá divulgar no final de junho.

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