São Paulo - A Daslu está com dificuldade em abastecer a loja. Na semana passada, a Chanel, menina dos olhos da butique, não tinha recebido ainda a nova coleção da grife. As vendedoras não davam nem uma previsão de quando a mercadoria poderia chegar. Para preencher o vazio causado pela falta dos produtos - não há peças nem no estoque -, ali foi montada uma pequena exposição com trajes vintage da grife, entre eles, tailleurs e vestidos de festa, a maioria emprestada das clientes vips. Vale lembrar que, quando a Daslu abriu as portas no megaprédio de 17 mil metros quadrados, na Marginal do Pinheiros, na zona sul da capital paulista, em junho do ano passado, pretendia ser o único endereço da América do Sul a oferecer a coleção completa da Chanel.
As araras da Pucci encontravam-se igualmente vazias. As salas vizinhas da linha feminina da Prada e da Dolce & Gabbana foram desativadas por falta de produtos. No segundo andar são mais evidentes os sinais de que os negócios não vão bem para o mais poderoso conglomerado do luxo no País. Idealizado para ser uma espécie de parque de diversões masculino, o espaço perdeu expositores importantes. A Bang & Olufsen, fabricante dinamarquês de áudio e televisões com design futurista, deixou o espaço. Também ficavam expostos barcos e supercarros, foco de atenção da maioria dos marmanjos, como o Maserati e o Mitsubishi. Sumiram de cena.
Mais baixas aconteceram no setor de casa e decoração. A famosa tapeçaria de Ana Luiza Wawelberg também fechou. Até o renomado decorador Sig Bergamin, que participou do projeto do novo prédio, bateu em retirada. ''Há quase dois meses não vou a Daslu'', diz Lucilia Diniz, sócia do Pão de Açúcar, que tem feito suas compras nos Jardins. ''A loja está de baixo astral. É uma pena'', diz ela.
Na semana passada, a Daslu recebeu peças da Gucci. Há previsão de chegar alguma coisa da Todi nos próximos dias. Quando aparece mercadoria nova, as vendedoras correm para telefonar para a clientela vip.
O outlet da marca, que funcionava no centro comercial de Alphaville, fechou. Nesse endereço eram vendidas as peças que não tinham saída no prédio da Marginal do Pinheiros com até 90% de desconto. O saldão chique era um sucesso e formava fila na porta. ''Já vi muita perua disputando a tapa uma bolsa, mas hoje não tem pelo que brigar'', lamenta o joalheiro Sau Lopes.
Desde que a loja passou a ser investigada pelo Ministério Público Federal, a empresa perdeu a agilidade em repor as mercadorias. Eliana Tranchesi, dona da Daslu, e o irmão, Antonio Piva Albuquerque, diretor financeiro da loja, são acusados de crimes de contrabando, sonegação fiscal e falsidade ideológica. Se condenados, podem pegar 21 anos de prisão.
Em maio, a Justiça determinou o leilão de uma carga avaliada em R$ 1,7 milhão de artigos da Chanel e Gucci, apreendidos em dezembro de 2005, pela Receita Federal no Porto de Itajaí. Importados pela Columbia Trading, os produtos pertenceriam a Daslu, segundo o procurador do Ministério Público Federal Matheus Baraldi Magnani. ''A falta de importados na Daslu é um sinal de que estamos fazendo um trabalho eficiente'', diz o procurador Magnani.
Na semana passada, Magnani recebeu um lote de documentos enviado pela Polícia Federal dos Estados Unidos sobre as atividades comerciais da Daslu no território americano. O promotor começou a examiná-los, mas adianta que ''há muitos indícios de irregularidades''.
Na tentativa de regularizar o abastecimento da Daslu, Eliana Tranchesi conseguiu há cerca de um mês uma autorização da Receita Federal para importar diretamente suas mercadorias. Com o Registro e Rastreamento da Atuação dos Intervenientes Aduaneiros (Radar) em mãos, a empresária cria oficialmente um departamento de importação dentro da butique.
Os problemas de Eliana não param por aí. Na terça-feira, o Superior Tribunal de Justiça concedeu um habeas-corpus para seu irmão deixar a cadeia. Diretor financeiro da Daslu, Antônio Carlos Piva de Albuquerque foi preso três vezes. Em todas as ocasiões, voltou porque o habeas-corpus foi cassado. Eliana submete-se a um tratamento combinado de rádio e quimioterapia. Há quinze dias, ela passou por uma cirurgia para retirar dois nódulos no pulmão. Eliana não se deixou abater. Já está em franca atividade.

mockup