De la Rúa busca apoio externo ao plano
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de maio de 2000
María García Agência Estado De Buenos Aires 
O governo argentino deve apresentar aos investidores externos e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), talvez já amanhã, o pacote de medidas que anunciou na segunda-feira. O objetivo é buscar apoio externo com o que reconquistaria a confiança dos mercados, abalada nos últimos dias.
Para o ministro da Economia, José Luis Machinea, se as medidas não tivessem sido tomadas, o país corria o risco de não poder recorrer ao mercado externo e a reativação econômica estaria comprometida. A longo prazo a conversibilidade também poderia ser prejudicada, acrescentou. Machinea viajará hoje aos Estados Unidos para explicar aos investidores externos os alcances do novo pacote de ajustes.
Ontem, o ministro adiantou parte de sua tarefa, explicando a um grupo de investidores norte-americanos, japoneses e europeus, por meio de conferência telefônica, os alcances das medidas. Isso desobriga o ministro da Economia, pelo menos em parte, a atender a missão do FMI que chegou ontem à Argentina para analisar as metas fiscais do primeiro semestre do ano. Uma parte da equipe já está no país e a subdiretora para o Hemisfério Ocidental do FMI, a italiana Teresa Ter Minassian, chega amanhã.
As medidas aborreceram os setores sindicais. Os bancários iniciam hoje greve geral e devem apoiar a manifestação convocada pelo sindicalista Hugo Moyano, que controla a ala dissidente da Central Geral dos Trabalhadores (CGT). Para o economista Guillermo Calvo, o ajuste vai permitir que se cumpra o cronograma estabelecido com o FMI.
Contudo, o economista tem dúvidas se o presidente Fernando de la Rúa conseguirá ir até o final com seu programa. É preciso ser muito otimista para acreditar que o pacote reativará a economia. Para o chefe de assessores do ministério da Economia, Pablo Gerchunoff, não se pode prometer uma reativação imediata da economia.
O plano de responsabilidade total em alusão à rígida Lei de Responsabilidade Fiscal , anunciado na segunda-feira vai atrasar a recuperação econômica argentina esperada pelo governo, disse o economista Carlos Pérez, da Fundação Capital. De acordo com ele, 80% do Produto Interno Bruto (PIB) argentino depende do consumo e o segundo ajuste fiscal em menos de cinco meses anunciado anteontem atinge justamente esse setor.
Acredito que o pacote vai atrasar a recuperação da economia do país até o final deste trimestre, disse Pérez, em entrevista à Agência Estado, por telefone, de Buenos Aires. Nem mesmo os investimentos privados de US$ 23,9 bilhões nos próximos cinco anos e a proposta de um novo acordo fiscal federal com as províncias (Estados) devem acelerar a reativação econômica.
A dúvida é saber se o setor privado tem fôlego suficiente e o compromisso de cavalheiros necessário para investir os cerca de US$ 24 bilhões estimados pela equipe econômica do ministro José Luis Machinea para tirar o país da recessão. Há dúvidas também se as províncias, em sua maioria governada por peronistas, estariam dispostas a fazer seus próprios ajustes fiscais para ajudar o presidente De la Rúa na empreitada de colocar a Argentina no rumo do crescimento econômico.
Para cativar o setor privado, o governo de la Rúa está oferecendo prorrogar o período de concessão de serviços públicos, hoje em mãos de empresas argentinas e estrangeiras. Na área de telecomunicações, por exemplo, o governo se comprometeu a desregulamentar totalmente o setor até o dia 15 de junho. Com isso, espera atrair investimentos de US$ 4 bilhões.
Em relação às províncias, De la Rúa está convidando (não pedindo e muito menos exigindo) os governadores para tentar definir um novo acordo fiscal federal. A tarefa do governo, daqui para frente, não é tão simples como a de passar tesoura nos salários de cerca de 140 mil funcionários públicos e fazer um corte de US$ 938 milhões no orçamento federal. O ruim nesses pacotes é que eles não são feitos de forma simultânea com as províncias. Por isso, dá a impressão que o ajuste será contínuo e isso, certamente, provoca dúvidas sobre a recuperação econômica, disse.


