De crise em crise, nenhum setor produtivo sai ileso
Das tecelagens às distribuidoras de energia, é difícil encontrar um setor produtivo que escape ileso das seguidas crises que atingem a economia brasileira. Um levantamento da consultoria MB Associados mostra que quase todo mundo será afetado pela falta de energia, pela crise na Argentina, pela retração da economia mundial ou pelos atentados nos Estados Unidos.
Os economistas não prevêem uma crise que leve a uma quebradeira geral de empresas. O que deve ocorrer, dizem, é uma estagnação, um torpor que vai se espalhar por quase toda a economia, enquanto alguns setores exportadores se beneficiam da alta do dólar.
''O Brasil vinha empobrecendo com os efeitos da crise da Argentina, da alta do dólar e dos juros'', diz o economista Fábio Silveira, autor do estudo. ''Depois dos atentados, os consumidores dos Estados Unidos vão se retrair e a recuperação das economias americana e brasileira será adiada para o segundo trimestre de 2002.''
Até meados de 2002, o governo deverá manter a taxa de juros em alta, o crédito limitado e a economia em marcha muito lenta para fazer frente a esse cenário de crise. Os que devem sofrer mais são os setores voltados para o consumo. As vendas de supermercados, empresas têxteis e fabricantes de eletrodomésticos devem crescer muito pouco, estagnar ou cair.
''O desemprego vai aumentar e o salário real vai cair, corroído pela alta da inflação. Essa combinação é ruim para os setores que dependem do consumo'', diz Dawber Gontijo, estrategista-chefe do HSBC Investment Banking.
Gontijo calcula que o Brasil deve crescer 1,4% em 2001 e 1,7% em 2002. Esses números são muito parecidos com o índice de crescimento populacional, o que indica uma estagnação na economia. Pelas contas de Fábio Silveira, o desemprego medido pelo método do IBGE deve subir de 6,2% para 7% da população em idade de trabalhar. Os salários vão cair 2,5%.
''Com a queda no nível de renda, devem ser afetados desde setores como o turismo até profissionais, como empregadas domésticas, advogados e médicos'', diz Luis Fernando Lopes, estrategista-chefe no Brasil do banco americano J.P. Morgan.
Entre os mais afetados, estão os fabricantes de televisores, videocassetes e aparelhos de som. Além de queda nas vendas de 6,9% em 2001, são afetados pelo aumento do custo das peças importadas.
Também serão prejudicados os setores que vendem a prazo. Com os juros em alta, construtoras de imóveis e montadoras de carros já enfrentam dificuldades para conseguir clientes, além de correr maior risco de inadimplência.
De junho a agosto, o número de lançamentos imobiliários caiu 30%. As empresas estão demitindo. Desde maio, o número de empregados caiu 1,6%. As montadoras resistiram o quanto puderam à retração da economia, com feirões e promoções agressivas. Mas as vendas também estão em queda e Volks, Fiat e GM já deram férias coletivas para seus empregados.
''Estamos num processo de desaceleração e no fim do ano ainda estaremos descendo a ladeira'', diz Eduardo Zaidan, vice-presidente do Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo). ''O ano que vem não será melhor.''
Além de sofrer o aperto do crédito, o setor de construção civil também será afetado pela diminuição dos investimentos na construção de fábricas e nos gastos do governo. (AF)





