CUT prevê aumento do desemprego
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de agosto de 2001
Cláudia Bredarioli,<BR>Adriana Moreira e Renato Cruz<BR>Agência Estado 
O mercado de trabalho deve passar por uma situação delicada nos próximos meses, com expectativa de queda ou pelo menos suspensão na oferta de novas vagas. Considerando as expectativas mais pessimistas - que incluem atraso de investimento no setor elétrico - e a projeção privada de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 1% e 2% no ano, os cargos que deixam de ser criados, somados aos cortes, podem atingir um total de 800 mil postos de trabalho este ano, de acordo com previsão da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e de cálculos aproximados do professor José Pastore.
Numa tendência que contraria a sazonalidade, estima-se que no segundo semestre de 2001 os índices de desemprego não apresentem o ritmo tradicional de queda em por causa do aquecimento da economia que sempre ocorre no período.
Isso porque, este ano, tudo indica que o nível de atividade do primeiro semestre supere o previsto para o segundo.
A previsão da CUT é de que 400 mil vagas deixem de ser criadas em todo o País e seu presidente, João Felício, estima que postos sejam fechados em igual número. Isso sem considerar os que já estejam desaparecendo, acrescenta o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. No Centro de Solidariedade ao Trabalhador, da Força, a média de ofertas de vagas por dia caiu de 8.500 em junho para 4.200 na semana passada.
Haverá alteração no cenário, alerta o especialista José Pastore, só se os investimentos no setor elétrico, previstos em cerca de R$ 1 bilhão apenas para este ano, vierem o mais rápido possível. Segundo ele, caso a verba só saia no ano que vem, o quadro do emprego será muito preocupante.
Pastore lembra ainda que, em geral, o dado usado pelo mercado é de que cada 1% de crescimento do PIB crie de 350 mil a 400 mil postos de trabalho. Além disso, ele explica que, tradicionalmente, cerca de 40% do PIB vem do resultado da atividade econômica do primeiro semestre, e os outros 60%, do segundo. Assim, se no início do ano previa-se crescimento econômico entre 4% e 4,5%, a queda de dois pontos porcentuais desse indicador resultaria no cancelamento do surgimento de pelo menos 700 mil vagas.
Os próprios trabalhadores já começam a prever mais dificuldades. Desempregado há nove meses, o vigilante Aparecido Florenço de Oliveira, de 26 anos, considera que a possibilidade de alguma melhora no segundo semestre está descartada. ''Ou fica na mesma, ou piora'', acredita. Segundo ele, o mercado está muito exigente. ''Eu tenho experiência, mas não é suficiente.''
Demissões Mesmo assim, as demissões em massa, por enquanto, estão descartadas, sobretudo nas grandes empresas. Pastore acrescenta, contudo, que todas as opções que em geral antecedem esse tipo de decisão já foram tomadas em setores fortes de grandes cadeias produtivas, como férias coletivas, banco de horas e planos de demissão voluntária. O exemplo mais claro vem da indústria automobilística.
Nos setores de telecomunicações e eletroeletrônicos a situação é ainda mais crítica. A própria Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) prevê corte de cerca de 500 vagas até o fim do ano. Várias empresas ligadas a esses setores dispensaram funcionários recentemente, como Nortel, Furukawa e GloboCabo.
Conforme esclarece o diretor-técnico do Dieese, Sérgio Mendonça, no geral as novas vagas não vão deixar de ser criadas, mas virão em proporção e qualidade bem inferiores às que surgiram em 2000.


