O aumento dos custos de produção, em consequência da elevação no preço dos insumos após a desvalorização cambial já preocupa os produtores que estão planejando a safra de verão 1999/2000. As principais entidades que representam a agropecuária paranaense decidiram ontem elaborar um documento pedindo regras mais claras para o período da comercialização. Além do fator custo, são apontados mais dois motivos de inquietação: a falta de recursos para o crédito e a tendência de baixa nos preços das commodities, já anunciada pelo Banco Mundial.
A elevação no preço dos insumos reduziu a rentabilidade dos produtos de exportação. Os produtores se animaram com o ajuste do câmbio, mas depois perceberam que parte do lucro será absorvida pela indústria de insumos, como de defensivos.
Para os produtos consumidos no mercado interno, o aumento dos custos de produção pode comprometer o plantio da próxima safra. O Departamento de Economia Rural, da Secretaria da Agricultura, levantou os custos de produção dos principais produtos após a desvalorização cambial. A engenheira agrônoma Vera Zardo explicou que os custos apurados, em abril, levaram em consideração o desembolso com o plantio, mão-de-obra fixa e depreciação das máquinas.
O custo de produção do feijão aumentou 7,8% sobre o mês de setembro do ano passado, época que foi plantada a safra. Hoje o custo foi calculado em R$ 29,06 a saca, enquanto no ano passado o custo de produção foi de R$ 26,92. Apesar desse aumento, o preço mínimo do produto se mantém em R$ 26,00 a saca. O mercado está pagando do mínimo, em torno de R$ 31,00 a saca do feijão preto e R$ 29,00 para o feijão carioca.
Milho O custo do milho, que era de R$ 7,53 a saca em set/98 evoluiu para R$ 8,90 em abril de 99, um aumento de 18% enquanto o preço mínimo permanece em R$ 6,70 a saca. Esse custo foi projetado para o sistema de plantio convencional e produtividade de 70 sacos por alqueire, destacou Vera Zardo. A vantagem dos produtores de milho é que o preço de mercado está acima do preço mínimo, disse a técnica. Atualmente o preço de mercado do milho, pago ao produtor, é de R$ 8,18 a saca, em média.
A soja teve o custo de produção aumentado de R$ 8,44 a saca em setembro do ano passado para R$ 10,65 a saca para o mês de abril de 1999, uma variação de 26%. Essa média foi projetada para uma produtividade de 50 sacas por hectare. Em março, o produtor recebeu em média R$ 14,00 a saca. Como não existem perspectivas de bons preços para a soja, no curto prazo, Zardo destacou que o produtor vai precisar de crédito para plantar na próxima safra.
O custo de produção do algodão que era de R$ 7,53 a arroba, em setembro do ano passado, evoluiu para 8,90 a arroba, numa produtividade de 123 arrobas por hectare, um aumento de 18%. Enquanto isso o preço mínimo do algodão está fixado em R$ 7,00 a arroba e o mercado está pagando R$ 8,51 a arroba.
Nelson Costa, assessor econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), acredita que as indústrias vão reduzir o preço dos insumos, que segundo ele, tiveram uma alta exagerada após a desvalorização cambial. A média do ajuste, de 45% conforme cálculo da Ocepar, ‘‘tornou a situação preocupante, podendo até comprometer o plantio da próxima safra se não houver retração nos preços’’, alertou. Costa lembrou que a alta no preço dos insumos pode prejudicar diretamente os produtos consumidos no mercado interno que não sofrem a influência do câmbio, mas são atingidos diretamente pelo aumento dos preços dos insumos indexados ao dólar.
Cartel A Federação da Agricultura do Paraná (Faep) está preocupada com a escassez de recursos para o plantio da próxima safra de verão. Segundo o assessor econômico, Carlos Augusto Albuquerque, se o governo federal repetir o que fez na safra passada, quando prometeu R$ 11 bilhões e só liberou R$ 8 bilhões, vai ficar difícil ampliar a área plantada. Em relação a alta dos insumos, a Faep entrou com processo junto ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e ao Procon para apurar formação de cartel entre as indústrias de defensivos.
Albuquerque condenou as indústrias de defensivos que aproveitaram a oportunidade da desvalorização para promover ajustes acima do esperado. Não é possível o câmbio ser ajustado em aproximadamente 40% e alguns insumos subirem até 60% como ocorreu? - perguntou. Ele concordou que a desvalorização cambial deu um fôlego para o produtor até a próxima safra. ‘‘Não fosse isso, a agricultura estaria arrasada’’, observou. A soja que foi comercializada em média por R$ 15,00 a saca, teria sido vendida por R$ 9,00 a saca o que daria prejuízo, lembrou.

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