Cultura do algodão foi
a grande vítima no PR
Arquivo FolhaSEM NADAFim do algodão como cultura inviabilizou também o pequeno produtorÊxodo populacional, pequenos agricultores falidos, soja no lugar do algodão. Essa situação não é consequência da praga do bicudo que já destruiu áreas algodoeiras do País, mas o resultado do Plano Real na região do Vale do Ivaí (Norte do Paraná). O município de São João do Ivaí, que no início da década chegou a plantar 9.000 hectares em algodão, vive agora os reflexos desse declínio.
De uma população de 16.663 habitantes em 1991, o município teve uma redução para 13.815 em 1996, e estimativas do IBGE projetam 12.088 neste ano (redução de 27,5% em relação a 1991). A situação mais grave é no setor rural. Em 1996 o município tinha 1.153 propriedades rurais. Hoje, o Deral (Departamento de Economia Rural), órgão da Secretaria de Agricultura do Paraná, estima que existam menos de 900 (22% a menos).
Mário Aparecido Iurino, técnico do Deral em São João do Ivaí, afirma que o fim do algodão como cultura inviabilizou também o pequeno produtor, ‘‘com a incorporação de áreas por produtores de soja’’. A soja, lavoura mecanizável, é inviável para áreas inferiores a 20 hectares. No município, o tamanho médio da propriedade rural era de 9 hectares. Com a incorporação de propriedades, a média saltou para 15 hectares. Esse processo de transferência é evidente em números. Nesta safra de verão a soja irá ocupar 10 mil hectares, contra menos de 1.500 hectares em algodão.
Os efeitos desse declínio revelam tragédias pessoais, como a do ex-agricultor e hoje bóia-fria Leonino da Silva, 53 anos. Até 1996 ele tinha 17,5 alqueires no distrito de Vista Alegre e uma vida confortável. Sua família tinha casa com luz elétrica e água encanada, além de uma camionete. Hoje mora em uma casa sem água e luz, feita com sobras de um barracão de madeira, doada pelo cunhado. ‘‘O terreno também ganhei, foi dado pela Prefeitura’’, afirma Silva. Para sobreviver, trabalha como bóia-fria por uma diária de R$ 7. Resignado, lamenta apenas que ‘‘o País não valoriza quem trabalha, mas a especulação’’. ‘‘E olha que eu tinha votado nos dois (Collor e FHC) acreditando que iriam olhar para a gente’’.(AF)

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