Cultivo da soja traz problemas à América do Sul
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segunda-feira, 21 de março de 2005
Mauro Zafalon<br>Folhapress 
Foz do Iguaçu - Nem tudo vai bem no novo paraíso do ''ouro verde'': a soja. O cultivo do produto, que cresceu aceleradamente na América do Sul, trouxe vários benefícios para a região, mas também problemas. É o que constataram os 205 participantes do primeiro fórum sobre a sustentabilidade da soja, realizado na semana passada em Foz do Iguaçu (PR).
A proposta do evento foi estabelecer critérios mínimos de incremento do cultivo da soja sem degradar o ambiente, respeitando a diversidade social e cultural das populações agrícolas. Toda a cadeia produtiva participou do evento: agricultura familiar, grandes produtores, organizações sociais, indústrias, importadores, entidades de pesquisas e cadeias de supermercados.
De início, ficou clara a dificuldade em estabelecer o que é sustentabilidade. Para os pequenos produtores, implica uma não-dependência da soja e, muito menos, da soja transgênica.
Para os grandes produtores, uma agricultura sustentável é a que segue padrões de bom manejo. O transgênico é consequência de uma evolução tecnológica e pode perfeitamente ser inserido no contexto de sustentabilidade.
Para a indústria, a produção é sustentável. E e possível, inclusive, uma produção diferenciada de soja tradicional e de transgênica, o que gera custos extras - e alguém tem de pagar por isso.
No início, uma surpresa. Yolanda Kakabadse, presidente do fórum, pede a quem nunca viu um pé de soja que levante a mão. Foi a única a levantá-la. Por não fazer parte desse mercado, era a pessoa ideal para ''escutar as vozes dos vários atores envolvidos nesse processo, mas dependentes uns dos outros'', como ela mesmo definiu o fórum. A produção de soja sustentável é a que leva em consideração as questões econômicas, sociais, culturais e ambientais, define ela.
Altemir Tortelli, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), destaca as profundas diferenças entre os participantes. Ele destaca que o sistema atual beneficia apenas o grande produtor e os complexos agroindustriais.
Tortelli diz que o governo vive uma dualidade: ora tem os olhos no agronegócio exportador ora na agricultura familiar. Segundo Tortelli, ''o produtor não tem culpa de produzir o que o mercado paga melhor, mas falta uma regulamentação do Estado para resguardar o ambiente''.
A soja, que atravessa fronteiras, também espalha problemas. Sílvio Molinas Maldonado, secretário-executivo de Meio Ambiente do Paraguai, diz que o país tem a maior taxa de desmatamento da região. E culpa a soja.
Alberto Yanosky, da Guyra Paraguay, diz que a soja é o produto que mais cresce no Paraguai, mas traz um impacto social perverso para as regiões de pequenos produtores, principalmente nas dominadas pelos brasileiros.
Luis Cubilla, da Capeco (associação dos exportadores paraguaios), diz que ''a culpa não é da soja, mas do homem, que não a maneja bem''.


