Curitiba - A medida anunciada pela Caixa Econômica Federal no final de agosto de aumentar o prazo de financiamento da casa própria de 20 para 30 anos não é popular. De acordo com dados da Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH), o País tem um déficit habitacional de 8 milhões de pessoas que não têm o seu próprio imóvel. Deste total, 92% ganham até cinco salários mínimos (R$ 1.900,00) e não são atingidos pelo novo programa de incentivos do banco em função da renda. O diretor da ABMH, José Geraldo Tardin, explicou que para o financiamento de 30 anos a Caixa utiliza recursos do sistema brasileiro de poupança que atinge o público que ganha mais que cinco salários mínimos.
Segundo ele, a maior parte das pessoas que não tem casa própria não será contemplada com recursos do sistema brasileiro de poupança. ''Essa proposta de aumento de prazo não vai atender o déficit habitacional. Só dá mais acesso ao crédito para quem não precisa. A nossa preocupação é com a criação de uma política habitacional'', disse.
O financiamento em 30 anos teria uma prestação 11% menor mas o montante total pago ao banco pelo empréstimo ficaria 19% maior se comparado ao prazo de 20 anos. Uma pessoa que emprestasse R$ 91 mil da Caixa em 20 anos pagaria R$ 205 mil. Em 30 anos, o valor sobe para R$ 245 mil. ''Isso é uma tentação e gera uma compra por impulso'', disse Tardin. A média de juros anuais cobradas nos financiamentos é de 12% ao ano mais a TR, o que resulta em um total de 18% a 22% ao ano, o que acaba em três vezes o valor do imóvel. Tardin lembrou que a Caixa anunciou uma pequena redução nos juros e ainda para imóveis acima de R$ 130 mil.
Ele alertou que, antes de o mutuário assinar o contrato do financiamento, deve procurar um advogado para analisar o documento. ''Não adianta procurar o banco e o corretor de imóvel para ver se é um bom negócio'', disse.
Tardin lembrou que a legislação permite comprometer 30% da renda. No entanto, ele aconselha não gastar mais do que 15% do orçamento mensal familiar com o pagamento da prestação. Ele explicou que o custo de vida aumenta e a pessoa não consegue pagar a prestação. ''Os mutuários que tiveram os imóveis retomados começaram comprometendo 30% da renda. Em cinco anos, a prestação já atinge 50% do orçamento. Não é que a prestação aumente. O custo de vida sobe'', disse.
Outra dica importante é fazer uma pesquisa e escolher o banco que ofereça a menor taxa de juros. A maior parte dos bancos tem simuladores de financiamento nos sites. Basta informar o prazo, a renda da pessoa e o valor a ser financiado. As prestações geralmente são decrescentes mas, o mutuário consegue sentir os efeitos após o oitavo ano de pagamento.
Ele disse ainda que o mutuário corre o risco de ficar com um saldo residual no final do contrato. A fórmula dos financiamentos não é para apresentar resíduo. Caso haja inflação alta, o saldo devedor pode crescer. Se a TR (Taxa Referencial) sobe, na hora de calcular, a prestação pode ficar mais cara.
O mutuário também deve estar atento ao sistema de amortização do saldo devedor. São três os principais sistemas: SAC (Sistema de Amortização Constante), Sacre (Sistema de Amortização Crescente) e a tabela Price. Segundo Tardin, o SAC seria uma opção melhor porque traz no cálculo uma amortização constante na prestação e no saldo. Mas, o problema é que parte de uma prestação muito alta. Por exemplo, R$ 100 mil financiado em 15 anos, teria uma prestação de R$ 1.956,00. ''Quem é que consegue?'', disse.
O sistema Sacre só é disponibilizado pela Caixa. Neste caso, o contrato é recalculado uma vez por ano, com isso, reduz a prestação e o saldo. Na opinião dele, a Price é a mais desvantajosa e começa com uma prestação muito alta. Neste caso, o mutuário só começa a ter amortização e redução a partir do pagamento de 75% do contrato.
Tardin disse que a melhor opção é poupar para comprar o imóvel à vista. Ele garante que se a pessoa tiver aplicado 30% do valor da entrada do imóvel e guardar durante 57 meses (quase 5 anos) o valor que gastaria com o pagamento da prestação de um financiamento, consegue comprar o imóvel à vista.
Caso a pessoa não tenha mesmo como comprar a casa própria à vista, ele aconselha o consórcio que é uma opção melhor porque não tem juros. Se o mutuário fechar o contrato de um imóvel de R$ 100 mil em 15 anos vai pagar R$ 27 mil a mais. Os consórcios têm apenas a correção monetária do Índice Nacional da Construção Civil (INCC).
Ele diz ainda que apesar da agilidade que se faz um contrato, eles são extremamente complexos e precisam ter planejamento e a consultoria de um advogado. Ele ainda destacou que se o mutuário deixar de pagar três prestações tem o imóvel retomado pelo banco e perde todo o valor que já pagou.
A assessoria da Caixa Econômica Federal em Londrina informou que para o público com renda menor que 5 salários mínimos, a instituição oferece outras modalidades com recursos do FGTS e subsídios do Governo Federal.

mockup