Curitiba - Ir à feira, para a maioria das pessoas, significa comprar frutas bonitas, verduras e legumes fresquinhos, encontrar maior variedade de produtos, poder escolher entre vários tipos de queijos e embutidos. Esse conceito de feira livre, em geral, está ligado a uma outra cultura própria da maioria da população: a vontade de poder pegar no produto, sentir sua textura, apertar para ver se está na consistência desejada, provar antes de comprar, enfim, ter maior contato com o produto.
Pensando desse modo, a impressão que se tem é ir à feira é como um passeio, e, como tal, não deve exigir preocupações. Grande engano. Basta ir a qualquer feira, seja em bairros simples ou de classe alta, para notar que as boas práticas de manipulação da comida são totalmente esquecidas. É comum, por exemplo, que feirantes peguem dinheiro, em seguida peguem no produto e, muitas vezes, ainda cortem o alimento para o cliente provar. Tudo isso sem lavar a mão uma única vez. Essa prática é, aliás, uma das principais reclamações registradas pelo serviço 156 da Prefeitura de Curitiba.
Por outro lado, de acordo com o diretor da Secretaria do Abastecimento de Curitiba, Luiz Gusi, o fim desse contato direto com o feirante e com o alimento é um dos principais obstáculos na hora de implantar mudanças de hábitos na feira. Há três meses, a secretaria, em conjunto com o Departamento de Vigilância Sanitária da Secretaria Municipal de Saúde, trabalha para adequar as barracas à legislação sanitária em vigor, em relação à temperatura de armazenamento dos produtos, higiene das barracas, rótulos das mercadorias, entre outros itens. ''É um trabalho para o varejista e para o consumidor, que deve ser o grande fiscal. Estamos mexendo numa questão cultural, educacional'', afirma.
Primeiro, a secretaria trabalhou junto aos feirantes de pescados. De 20 pontos de venda, apenas três ainda não se adequaram e caso não se enquadrem, esses comerciantes poderão ser suspensos. A segunda etapa envolveu as barracas de frios, embutidos e lacticínios, que tiveram até o final de setembro para se adequar. Em seguida, a secretaria centrará o trabalho também junto às barracas de cereais, grãos, biscoitos, frutas e verduras.
''Em um primeiro momento houve resistência porque implicava mudanças'', conta Gusi. No setor de pescados, os feirantes acabaram gostando das mudanças, que resultaram em aumento nas vendas, por causa da melhor apresentação do produto, e em redução das perdas em função da adequação das condição de armazenagem.
No setor de frios, a mudança envolve um gasto maior. Nivaldo Slompo, 33 anos de feira, vai gastar R$ 12 mil na compra de três balcões refrigerados. '''É complicado fazer essa mudança. Se a gente esconder a mercadoria, o pessoal reclama'', diz. Anderson Trevisan, que herdou a barraca de frios dos pais, decidiu investir ainda mais: R$ 50 mil em um trailler mais um caminhão. ''Os fregueses vão ter que se acostumar'', diz.
A freguesa Marli Kuntze, que vai toda semana na feira, diz que as mudanças não a incomodam. ''Eu reparo a qualidade e preço'', diz ela, que garante que não compra produtos sem rótulo, e não faz questão de pegar a mecadoria com a mão. Mesma opinião tem Laura Corso. ''Compro sempre produtos mais frescos, naturais e de marca'', conta.
Além de regras municipais, as feiras devem obedecer a Resolução 216, de 2004 do Ministério da Saúde, que estabeleceu regras de boas práticas alimentares para todo setor alimentício. Outra garantia da origem dos produtos está na Resolução 9, de 2003, do Ministério da Agricultura, que dispõe sobre a rastreabilidade.

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