Crítica
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Antônio Delfim Netto 
Algumas pessoas tem reclamado da forma como tenho criticado a política econômica e entendem que é preciso apresentar alternativas ao governo e não apenas apontar erros. A crítica em si já contém uma contribuição, quando se baseia em argumentos e quando procura fazer o governo enxergar os equívocos que vem cometendo.
Tenho criticado, por exemplo, o tratamento que se deu à agricultura, desde o governo passado e na vigência do Plano Real e me parece que não foi em vão. Houve correções para alguns desvios mais flagrantes, apesar que de forma muito tímida e ainda insuficientes. O crédito para financiar o custeio da atual safra foi ampliado em relação à safra passada e os juros cairam alguns pontos inclusive para investimentos. É evidente que a agricultura vai continuar reclamando, com razão, porque as taxas ainda são escorchantes e o volume de crédito absolutamente ridículo. A recuperação da área de plantio, se é que houve, não é significativa.
Houve também alguma sensibilidade na questão da tarifa de importação em uns poucos setores e o ministro Dornelles vem trabalhando dentro do governo para corrigir as muitas distorções que ainda perduram. De alguma forma devem ter servido os argumentos dos críticos.
Mas, a principal divergência em relação à política é que ela impede o crescimento econômico. Não há nenhuma justificativa para a manutenção das atuais taxas de juros e da política de câmbio pelo Banco Central. Há vinte meses venho insistindo em que é preciso desmontar a armadilha que impede o crescimento das exportações, sem o que não teremos como financiar as importações. Toda a vez que a atividade econômica dá sinais de recuperação, nos defrontamos com um perigoso aumento do déficit nas contas externas e o governo ameaça intervir para esfriar a economia.
A argumentação dos fundamentalistas do Banco Central - que se tomam como os únicos guardiães da estabilidade - é muito semelhante aos argumentos que ouvi esta semana de um ilustre banqueiro: numa política de estabilização, não podemos pretender atingir simultaneamente altas taxas de crescimento do PIB, com exportações crescentes e saldos comerciais que sustentam o aumento das importações. Temos que persistir mais um ou dois anos garantindo a estabilidade e, depois, o crescimento virá naturalmente e, com ele, o aumento de oferta de empregos, a recuperação da agricultura, etc...
Dito assim, parecem coisas absolutamente triviais o desemprego no campo e nas cidades, a destruição do setor exportador, a descapitalização da agricultura...apenas por mais um ou dois anos...
É preciso insistir na desmontagem desse tipo de argumento. Às vezes, a crítica tem audiência... Esta semana, em visita a Angola e à Africa do Sul, o sr. Presidente da República nos enviou um sinal de que o problema do déficit comercial se incorporou à pauta de preocupações do governo. Nós só vamos progredir - disse S.Exª - se expandirmos o comércio exterior. É uma questão crucial a expansão das exportações brasileiras...
Junto com o ruído dos tambores da África, é possível que a fala do trono chegue ao seu destino, em Brasília... E para que não se diga que não há alternativa, basta que considerem a seguinte: comecem a cortar seriamente as despesas estatais; as taxas de juros aos níveis internacionais; unifiquem as tarifas de importação em torno de uns 20%; e deixem o câmbio encontrar o seu ponto de equilíbrio. Sabendo fazer, nada disso é incompatível com o programa de estabilização.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é presidente da Comissão de Finanças e Tributação.


