Arquivo FolhaPitol: ‘‘Crise não é tão negra e vai apressar as reformas’’O dentista M.D., 54 anos, de Londrina, teve que fechar sua empresa há 1 ano e meio por causa de dívidas bancárias e voltar a trabalhar na antiga profissão. Atendendo numa clínica dentária emprestada por um amigo, no Cinco Conjuntos, ele enxugou suas despesas domésticas ao máximo e agora tenta se recuperar financeiramente.
M.D. não recomenda a ninguém a alternativa de emprestar dinheiro em banco para capital de giro. ‘‘Foi isso que embananou a minha vida’’, afirmou. Ele ainda deve para alguns bancos, que lhe cobram juros de até 13,5% ao mês. ‘‘Futuramente, irei tentar negociar estas dívidas’’.
O dentista teve que adotar medidas radicais para se adequar ao novo orçamento. Pai de quatro filhos, ele vai ao trabalho de ônibus diariamente para economizar combustível e despesas com mecânico. O carro fica guardado na garagem apenas para emergências. ‘‘Toda minha família começou a andar de ônibus’’.
‘‘Meus filhos também passaram a colaborar no orçamento da casa. Os dois que trabalham dão uma parte dos salários para ajudar no pagamento das contas e os outros dois, que só estudam, fazem pequenos bicos como digitação de textos’’, exemplificou o dentista. A empregada também foi demitida. M.D. procura economizar centavos atualmente.
Com uma renda familiar de R$ 800, o servente de pedreiro João Moisés Neto, de 51 anos, não tem boas expectativas para o próximo Natal. ‘‘A situação está cada vez mais difícil. A ceia deve ser pior do que a do ano passado’’, previu. Apesar de não pagar aluguel, ele diz que o dinheiro não tem dado até o final de cada mês. A compra de carne também diminuiu na casa do servente. ‘‘Comemos carne duas ou três vezes por semana. Antes do Plano Real, tínhamos carne todos os dias’’.
Mas a recessão não atinge todos os segmentos da sociedade. O presidente da Herbitécnica, Oswaldo Pitol, afirmou que a crise não é tão negra e servirá para o Congresso apressar a aprovação das reformas. Para ele, a crise não existe para quem está empregado e não compra a prazo e nem entra no limite do cheque especial. ‘‘A crise está apenas nos juros. Como eu não compro a prazo e não pago juros abusivos, ela não me atingiu’’.
Pitol também afirmou nunca utilizar o limite do cheque especial. ‘‘Só maluco ou gente mal informada entra no especial’’, disse. Para ele, um lojista que recorre a empréstimo bancário para ter capital de giro tem grandes chances de se tornar um ex-lojista no futuro. (Cláudia Lopes)

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