A semana da crise termina com uma boa notícia e outra ruim. A boa notícia: consolidou-se a sensação de que a tempestade não é um fenômeno isolado, que afeta apenas os chamados mercados emergentes. É global e, por isso, exige uma ação combinada das potências centrais, as únicas com poder de fogo para soluções. A má notícia anula, no entanto, a boa: os principais países industrializados carecem, no momento, de lideranças em condições de operar eficazmente no plano internacional.
O presidente norte-americano, Bill Clinton, enfraquecido pelos escândalos sexuais, perdeu poder de iniciativa. O governo japonês, atolado em uma crise interna prolongada e profunda, não consegue nem sequer atacar seus próprios problemas, quanto mais ajudar os outros a enfrentar os seus. A terceira grande potência, a Alemanha, está pendente de uma eleição (dia 27 de setembro) que, pelas pesquisas, pode provocar a queda de Helmut Kohl, seu primeiro-ministro já faz 16 anos.
É nesse cenário que o FMI (Fundo Monetário Internacional) convocou uma reunião, para debater a crise, para a qual foram convidados ministros da Fazenda de pelo menos 20 países, entre eles o brasileiro Pedro Malan. A julgar pelo estado de ânimo de seu diretor-geral, o francês Michel Camdessus, será um encontro capaz de alarmar ainda mais os já assustados governantes do mundo. Íntimos de Camdessus dizem que jamais o viram tão preocupado como nos últimos 30 dias.
Razões não faltam, principalmente quando se olham mais de perto dados da economia norte-americana, que é a mais sólida do planeta e vem num ritmo de crescimento contínuo faz sete anos. Dois exemplos:
1 - Das 500 companhias que formam o índice Standard & Poor’s, um dos mais observados pelo mercado, mais da metade está em queda neste ano, o que significa que a pequena elevação do índice geral se deve a grandes ganhos de um pequeno grupo de grandes empresas, mascarando o retrocesso das demais.
2 - Mas até baluartes do mercado, como as empresas de informática Intel e Microsoft, estão em queda, queixa-se Terence Gabriel, analista da norte-americana IDEA Inc., para o jornal The Washington Post .
Mesmo a economia real dos EUA está entrando em processo de desaceleração. Em julho, para citar um só exemplo, os consumidores reduziram seus gastos (0,2%, pouco é verdade, mas a primeira queda em dois anos). A redução ocorreu antes de que a crise se agravasse com o virtual colapso da Rússia, o que tende a provocar um círculo vicioso.
A moratória russa criou um estado de desconfiança generalizada em relação a todos os mercados emergentes, inclusive o Brasil. A tendência natural é a de que se fechem as torneiras externas que irrigam tais mercados, o que levará a uma desaceleração econômica ainda maior desses países.
Na Ásia, Coréia e Malásia divulgaram números que demonstram que estão oficialmente em recessão. Na América Latina, todas as projeções indicam que o crescimento se reduzirá para pouco mais da metade do registrado em 1997. Como a América Latina se tornou nos últimos anos o mais dinâmico mercado para a produção dos EUA, o resultado inevitável será uma pressão negativa para a principal economia do planeta. E as duas maiores economias da Europa (Alemanha e França) sentirão um impacto direto da moratória da Rússia, país em que bancos alemães e franceses enterraram, no total, pouco mais de US$ 60 bilhões (metade para cada país).

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