Crise reduz os ganhos dos dekasseguis
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de janeiro de 1999
Cláudia Lopes e Pedro Livoratti 
A crise que derrubou as bolsas japonesas no final do ano passado repercutiu profundamente na economia do País, mas não a ponto de inviabilizar a vida dos milhares de brasileiros que trabalham no país. Os dekasseguis tiveram que se adaptar à uma nova realidade. As horas extras, por exemplo, que reforçavam de modo expressivo a renda dos trabalhadores no Japão, foram cortadas. Mas os salários ainda estão na casa de US$ 3 mil por mês, um ganho que a grande maioria não conseguiria no Brasil. O desemprego no Japão existe e afeta sobretudo a própria população que se desloca de regiões agrícolas para os grandes centros industriais em busca de oportunidades.
Com a crise financeira, muitas empresas não renovaram os contratos temporários de seus trabalhadores, que são os próprios japoneses, conta o jovem M.W., que prefere não se identificar. Segundo ele, que mora no Japão há cinco anos, os brasileiros levam vantagens neste concorrido mercado de trabalho por uma razão simples: custam mais barato para as empresas. Pela legislação japonesa, as indústrias têm de arcar com seguro, despesas trabalhistas e até transporte para os operários que vêem de outras cidades. No caso dos dekasseguis, a legislação é mais flexível, o que significa menos custo operacional. Lá como aqui, a mão-de-obra barata é o grande atrativo.
O jovem está no Brasil para as festas de fim de ano e vai retornar ao Japão no dia 18, para trabalhar como operário em uma fábrica de componentes para automóveis. Segundo ele, em que pese o desemprego, no Japão o governo dá total apoio para quem perdeu seu posto de trabalho. Ele afirmou que, mesmo com algumas dificuldades causadas pela queda das vendas das indústrias, existem oportunidades para quem precisa trabalhar. Por isso, o dekassegui acredita na recuperação da economia japonesa. Se o Japão quebrar, muitos outros países serão prejudicados.
O ex-dekassegui Ronaldo Kunioshi desembarcou há dois meses em Londrina, após trabalhar um ano e meio em uma fábrica de peças plásticas, na província japonesa de Kanagawa-Ken. Ele conta que a crise não atingiu tão fortemente aquela região. Não senti o problema de perto. Meu salário e quantidade de horas extras foi sempre igual.
Kunioshi, que trabalhava 12 horas por dia, admite, porém, que o país do sol nascente já não é tão promissor como no início da década de 90. Os salários diminuíram em relação há cinco anos, diz. Ele não revela o quanto ganha, hoje, no Japão, mas dá um conselho para quem pretende fazer as malas e rumar para a Ásia, o olho do furacão da crise financeira: Fazer um pé-de-meia no Japão só compensa para quem ganha menos de US$ 2 mil por mês no Brasil. Do contrário, é melhor ficar por aqui.


