São Paulo – As linhas de financiamento ao comércio exterior do Brasil já estão sendo reduzidas por causa da atual crise. Segundo a estimativa informal de um operador desse mercado, as linhas comerciais totais já podem ter caído de um nível de US$ 30 bilhões a US$ 32 bilhões, no início deste ano, para algo em torno de US$ 23 bilhões a US$ 25 bilhões. ‘‘A gente vê uma falta de liquidez muito grande; não me lembro de ter visto uma retração como esta em outras crises’’, ele diz.
Segundo aquele operador, já há alguma redução de liquidez mesmo para as linhas de financiamento ao comércio exterior que vencem ainda neste ano – neste caso, porém, afetando mais as importações do que as exportações. Para linhas vencendo a partir do próximo ano, quando um novo governo estará no poder, a situação piora, tanto para exportações quanto importações.
Fontes deste mercado relatam que a oferta de linhas de comércio exterior já vem caindo há alguns meses, antes mesmo da atual turbulência. A demanda, porém, também estava menor, já que o cupom cambial (a taxa de juros em reais atrelada à variação do dólar) estava baixa, e valia a pena para as empresas se financiar no mercado interno.
Com a disparada do cupom cambial, um dos vários estopins da atual turbulência, as empresas se amontoaram para buscar as linhas de financiamento de comércio exterior, no momento em que elas escasseavam. Para clientes de primeira linha daquele banco, o custo de uma linha de curto prazo saltou de Libor mais 1% a 1,5% para uma faixa ampla que vai de Libor mais 2% até 4%, segundo operador. ‘‘Na verdade, o mercado está praticamente sem parâmetro’’, ele diz, acrescentando que empresas menos conhecidas muitas vezes nem conseguem se financiar.
A redução das linhas de comércio exterior é um sintoma preocupante, já que elas geralmente são as últimas a serem afetadas nos momentos em que o crédito externo se reduz para um país. No ano passado, a equipe econômica brasileira teve uma rusga com a Standard & Poor’s, a agência de classificação de risco (‘‘rating’’), porque esta incluiu as linhas de curto prazo de comércio exterior no total de financiamento externo de que o Brasil necessitava. A posição brasileira foi a de que estas linhas são sempre renováveis, mesmo em crises.
Os últimos anos, porém, mostraram que não é bem assim. Na crise da desvalorização do real em 1999, ficou claro que os bancos internacionais já não hesitam em reduzir o oxigênio do comércio exterior de um país, para proteger o seu capital. Houve um movimento forte de redução das linhas comerciais, iniciado ainda em 1998, que só foi contornado com um acordo fechado às pressas, sob a pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que garantiu a manutenção de um nível mínimo de financiamento para não paralisar o comércio exterior brasileiro.
Isto já foi diferente, no passado. Na crise da dívida externa do início dos anos 80, quando o Brasil iniciou a reestruturação do seu endividamento bancário, e não em bônus, como o de hoje, houve um acordo para a manutenção das linhas de comércio exterior que durou anos. Sustentar as linhas de comércio exterior faz sentido para os credores: se impedirem um país de exportar, obviamente as chances de que a dívida externa seja honrada se tornam nulas.
Nos anos 80, porém, os credores da dívida de longo prazo eram os próprios bancos que financiavam o comércio exterior. Sufocar o país era dar um tiro no pé. Hoje, os credores são dezenas de milhares de detentores de bônus. Talvez os bancos achem, portanto, que o problema não é mais deles.

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